Ação sem Ideia

É somente quando a mente se encontra livre da ideia que pode haver experimentação. As ideias não são a verdade; e a verdade é algo que deve ser experimentado de forma directa, de momento a momento. Não se trata de uma experiência que seja desejada por vós — o que seria mera sensação. E apenas quando conseguimos ir além do feixe de ideias — que constitui o «eu», que constitui a mente, que tem uma continuidade parcial ou completa — , só quando conseguimos ir para além disso, quando o pensamento se encontra completamente silencioso, é que existe um estado que permite a experimentação. Então saberemos o que é a verdade.

Observação directa

Por que criam as ideias raízes na nossa mente? Por que não se tornam os fatos o mais importante — e não as ideias? Por que é que as teorias, as ideias, se tornam tão importantes em vez dos fatos? Será que não conseguimos compreender o fato, ou que não temos a capacidade, ou que tememos encarar o fato? Portanto, as ideias, as especulações, as teorias são um meio de fugir do fato.

Podem fugir, podem fazer todo o tipo de coisas; os fatos permanecem lá — o fato de estarmos zangados, o fato de sermos ambiciosos, o fato de sermos seres sexuais, milhentas coisas. Podem reprimi-los, podem transmutá-los, o que é uma outra forma de repressão; podem controlá-los, mas eles estarão todos a ser reprimidos, controlados e disciplinados por meio de ideias… Não é verdade que as ideias nos fazem perder a nossa energia? Não é verdade que as ideias embotam a mente? Podemos ser inteligentes quando especulamos, quando citamos alguém; mas, como é óbvio, é uma mente embotada que cita, que leu muito, e cita.

… Acabarão com o conflito dos opostos de uma só vez se forem capazes de viver com o fato e com isso libertarem a energia necessária para encararem o fato. Para a maior parte de nós, a contradição é um campo extraordinário no qual a mente se encontra aprisionada. Quero fazer determinada coisa, e acabo por fazer algo completamente diferente; mas se eu encarar o fato de querer fazer determinada coisa, deixa de haver contradição; e assim, de uma só vez, abulo por completo todo o significado da oposição, e então a minha mente fica inteiramente atenta ao que é, e com a compreensão do que é.

A Crença Impede a Compreensão Verdadeira

Se não tivéssemos qualquer crença, o que é que nos sucederia? Não deveríamos ficar muito assustados com o que pudesse acontecer? Se não tivéssemos qualquer padrão de acção, baseado numa crença — quer fosse em Deus, ou no comunismo, ou no imperialismo, ou nalgum tipo de fórmula religiosa, algum dogma no qual estamos condicionados — sentir-nos-íamos totalmente perdidos, não era? E não é esta aceitação da crença o disfarce desse medo — do medo de no fundo não sermos nada, de sermos vazios? Afinal, uma chávena apenas tem utilidade se estiver vazia; e uma mente que está cheia de crenças, de dogmas, de certezas, de citações, é na verdade uma mente incapaz de criar; é tão-somente uma mente repetitiva. Para escaparmos desse medo — desse medo do vazio, desse medo da solidão, desse medo da estagnação, de não se chegar, de não se conseguir, de não se alcançar, de não se ser alguma coisa, de não se vir a ser alguma coisa — é certamente uma das razões, não é verdade, por que aceitamos as crenças tão rápida e avidamente? E, através da aceitação da crença, será que nos compreendemos a nós mesmos? Pelo contrário. Uma crença, religiosa ou política, impede, obviamente, a compreensão de nós mesmos. Actua como um véu através do qual olhamos para nós próprios. E poderemos olhar para nós próprios sem as crenças? Se removermos estas crenças, as muitas crenças que temos, sobrará alguma coisa para a qual olharmos »? Se não tivermos nenhumas das crenças com as quais a mente se tenha identificado, então a mente, sem identificação, torna-se capaz de se ver a si mesma tal qual é — e então, tem por certo início a compreensão de nós mesmos.

A Crença Impede a Compreensão Verdadeira

Se não tivéssemos qualquer crença, o que é que nos sucederia? Não deveríamos ficar muito assustados com o que pudesse acontecer? Se não tivéssemos qualquer padrão de acção, baseado numa crença — quer fosse em Deus, ou no comunismo, ou no imperialismo, ou nalgum tipo de fórmula religiosa, algum dogma no qual estamos condicionados — sentir-nos-íamos totalmente perdidos, não era? E não é esta aceitação da crença o disfarce desse medo — do medo de no fundo não sermos nada, de sermos vazios? Afinal, uma chávena apenas tem utilidade se estiver vazia; e uma mente que está cheia de crenças, de dogmas, de certezas, de citações, é na verdade uma mente incapaz de criar; é tão-somente uma mente repetitiva. Para escaparmos desse medo — desse medo do vazio, desse medo da solidão, desse medo da estagnação, de não se chegar, de não se conseguir, de não se alcançar, de não se ser alguma coisa, de não se vir a ser alguma coisa — é certamente uma das razões, não é verdade, por que aceitamos as crenças tão rápida e avidamente? E, através da aceitação da crença, será que nos compreendemos a nós mesmos? Pelo contrário. Uma crença, religiosa ou política, impede, obviamente, a compreensão de nós mesmos. Actua como um véu através do qual olhamos para nós próprios. E poderemos olhar para nós próprios sem as crenças? Se removermos estas crenças, as muitas crenças que temos, sobrará alguma coisa para a qual olharmos »? Se não tivermos nenhumas das crenças com as quais a mente se tenha identificado, então a mente, sem identificação, torna-se capaz de se ver a si mesma tal qual é — e então, tem por certo início a compreensão de nós mesmos.

Uma Nova Aproximação à Vida

Parece-me que uma das coisas que a maioria de nós aceita de bom grado e toma como garantido é a questão das crenças. Não estou a atacar as crenças. O que estamos a tentar fazer é descobrir por que razão aceitamos as crenças; e se pudermos compreender os motivos, o que está na origem da aceitação, então talvez, possamos não só compreender por que o fazemos, mas também libertarmo-nos disso. Podemos observar de que modo as crenças políticas e religiosas, nacionalistas e de muitos outros tipos, separam as pessoas, criam realmente conflito, confusão e antagonismo — o que é um fato óbvio; e ainda assim não temos vontade de nos libertar delas. Existe a crença hindu, a crença cristã, a crença budista — inúmeras crenças sectárias e nacionalistas, diversas ideologias políticas, digladiando-se todas umas às outras, tentando converter-se umas às outras. Podemos observar, como é óbvio, que a crença está a separar as pessoas, a criar intolerância; será possível viver sem crença? Só o poderemos descobrir se nos conseguirmos estudar a nós mesmos na nossa relação com uma crença. Será possível viver neste mundo sem ter uma crença — não mudando de crenças, não substituindo uma crença por outra, mas estar completamente livre de todas as crenças, de forma a que possamos ler uma nova aproximação à vida a cada minuto? Isto é, afinal, a verdade: ter a capacidade de encarar tudo de uma nova forma, de momento a momento, sem a reacção condicionante do passado, de modo a que não haja o efeito cumulativo que funciona como uma barreira entre nós mesmos e o que é.

O Véu da Crença

Vocês acreditam em Deus, e outra pessoa não acredita em Deus, e assim as vossas crenças separam-vos uns dos outros. A crença encontra-se organizada, pelo mundo fora, sob a forma de Hinduísmo, Budismo ou Cristianismo, e deste modo divide um homem do outro. Estamos confusos e achamos que através da crença iremos tornar claro o que é confuso; isto é, a crença é sobreposta à confusão, e nós esperamos que com isso a confusão seja dissipada. Mas a crença é uma mera fuga ao fato que é a confusão; ela não nos ajuda a encarar nem a compreender o fato, mas apenas a fugirmos da confusão em que nos encontramos. Para compreendermos a confusão não é necessária a crença, e a crença apenas actua como um véu entre nós e os nossos problemas. Assim, a religião, que é a crença organizada, torna-se um meio de fuga ao que é, ao fato que é a confusão. O homem que acredita em Deus, o homem que acredita no além, ou que tem qualquer outra forma de crença, está a fugir à realidade do que ele próprio é. Não conhecem aqueles que acreditam em Deus, que fazem puja, que repetem certos cânticos e mantras, e que nas suas vidas diárias são dominadores, cruéis, ambiciosos, batoteiros, desonestos? Poderão encontrar Deus? Estão realmente à procura de Deus? Será possível encontrar Deus através da repetição de palavras, através da crença? Mas essas pessoas acreditam em Deus, adoram a Deus, vão todos os dias ao templo, fazem de tudo para fugirem ao fato que é a realidade do que são — e vocês consideram-nas respeitáveis porque elas são vocês mesmos.

Para Além da Crença

Constatamos que a vida é feia, dolorosa, triste; queremos algum tipo de teoria, algum tipo de especulação ou satisfação, algum tipo de doutrina que explique tudo isto, e portanto ficamos enredados na explicação, nas palavras, nas teorias, e, gradualmente, as crenças vão adquirindo raízes profundas e inabaláveis, porque por detrás dessas crenças, por detrás desses dogmas, existe um medo permanente do desconhecido. Mas nós nunca olhamos para esse medo; desviamo-nos dele. Quanto mais fortes forem as crenças, mais fortes serão os dogmas. E quando examinamos estas crenças — cristãs, hindus, budistas — descobrimos que elas dividem as pessoas. Cada dogma, cada crença tem uma série de rituais, uma série de compulsões que prendem e separam os homens. Portanto, começamos com uma investigação para descobrirmos o que é verdadeiro, para descobrirmos qual é o significado deste sofrimento, desta luta, desta dor; e rapidamente nos tornamos prisioneiros de crenças, de rituais, de teorias.

A crença é corrupção, porque por detrás dela e da moralidade esconde-se a mente, o «eu» — o «eu» a tornar-se maior, mais forte e poderoso. Nós consideramos a crença em Deus, a crença em algo como sendo a religião. Consideramos que acreditar é ser-se religioso. Compreendem? Se não acreditarem, serão considerados ateus, serão condenados pela sociedade. Uma sociedade condenará aqueles que acreditam em Deus, e outra condenará os que não acreditam. São ambas iguais. Portanto a religião torna-se uma questão de crença — e a crença atua sobre a mente e influencia-a; a mente, neste caso, nunca pode ser livre. Mas é somente na liberdade que vocês podem descobrir o que é verdadeiro, o que é Deus, não através de qualquer crença, porque a vossa própria crença projecta o que vocês pensam que Deus deve ser, o que vocês pensam que deve ser o verdadeiro.

Conturbados pela Crença

A vossa religião, a vossa crença em Deus, é uma fuga ao real, e portanto não é religião nenhuma. O homem rico que acumula dinheiro por meio da crueldade, da desonestidade, da exploração astuciosa acredita em Deus; e vocês também acreditam em Deus, também são astuciosos, cruéis, desconfiados, invejosos. Será possível encontrar Deus através da desonestidade, do logro, dos truques astuciosos da mente? Será que o fato de vocês coleccionarem todos os livros sagrados e os vários símbolos de Deus significa que são pessoas religiosas? Assim, a religião não é a fuga ao fato; a religião é a compreensão do fato daquilo que vocês são nos vossos relacionamentos quotidianos; a religião é o modo como falam, como dizem as coisas, como se dirigem aos vossos empregados, como tratam a vossa mulher, os vossos filhos, os vossos vizinhos. Enquanto não compreenderem a vossa relação com o vosso vizinho, com a sociedade, com a vossa mulher e os vossos filhos, haverá sempre confusão; e faça o que fizer, a mente que está confusa apenas será capaz de criar mais confusão, mais problemas e mais conflito. Uma mente que foge do real, dos fatos do relacionamento, nunca encontrará Deus; uma mente que está conturbada pelas crenças não conhecerá a verdade. Mas a mente que compreende a sua relação com a propriedade, com as pessoas, com as ideias, a mente que já não se debate com os problemas inerentes ao relacionamento, e para a qual a solução não é o afastamento mas a compreensão do amor — essa mente, e apenas ela, pode compreender a realidade.

Aquilo em que Acreditamos

Será que a crença traz entusiasmo? Será que o entusiasmo se pode sustentar a si mesmo se não houver uma crença, e será o entusiasmo de todo necessário, ou o que é necessário é um outro tipo de energia, um outro tipo de vitalidade, de actividade? A maioria de nós entusiasma-se com uma coisa ou outra. Somos muito interessados, muito entusiásticos quando se trata de concertos, de exercício físico ou de ir fazer um piquenique. Todavia, a menos que esses entusiasmos sejam constantemente alimentados por uma coisa ou outra, eles acabam por esmorecer e passamos a ter um novo entusiasmo por outras coisas. Haverá uma força que se sustente a si mesma, uma energia, que não dependa de uma crença? A outra questão é: será que necessitamos de qualquer espécie de crença, e se necessitamos, por que razão isso acontece? Este é um dos problemas relacionados com a questão. Nós não precisamos de acreditar que o Sol, as montanhas e os rios existem. Não precisamos de acreditar que discutimos com as nossas mulheres. Não precisamos de acreditar que a vida é um grande sofrimento com as suas angústias, conflitos e constante ambição; é um fato. Mas exigimos uma crença quando queremos fugir de um fato em direcção a uma irrealidade.

Compreender O Que É

Certamente, um homem que compreende a vida não quer ter crenças. Um homem que ama não tem crenças — ama. E o homem que está consumido pelo intelecto que tem crenças, porque o intelecto está sempre em busca de segurança, de protecção; está constantemente a evitar o perigo, e portanto constrói ideias, crenças, ideais, nos quais procura refúgio. O que aconteceria se vocês lidassem directamente com a violência, agora? Seriam um perigo para a sociedade; e como a mente antevê o perigo, ela diz «alcançarei o ideal da não-violência daqui a dez anos» — o que é um processo tão fictício e falso… Compreender o que é é mais importante do que criar e seguir ideais, porque os ideais são falsos, e o que é é o real. Compreender o que é requer uma enorme capacidade, uma mente ágil e sem preconceitos. É porque não queremos encarar e compreender o que é que inventamos as muitas formas de fugir e damos-lhes nomes adoráveis como ideal, crença, Deus. Por certo que é somente quando vejo o falso como falso que a minha mente se torna capaz de ver o que é verdadeiro. Uma mente que está confundida pelo falso nunca pode descobrir a verdade. Portanto, devo compreender o que é falso nos meus relacionamentos, nas minhas ideias, nas coisas que me dizem respeito, porque perceber a verdade requer a compreensão do falso. Sem se removerem as causas da ignorância, não pode haver iluminação; e procurar a iluminação quando a mente não está iluminada é totalmente vazio, sem sentido. Por isso, devo começar a ver o falso na minha relação com as ideias, com as pessoas, com as coisas. Quando a mente vê aquilo que é falso, então o que é verdadeiro ganha existência e então há êxtase, há felicidade.

Uma outra forma de ver a vida