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Explorar é ser-se Explorado

Como a maioria de nós procura o poder sob uma forma ou outra, é assim estabelecido o princípio da hierarquia, o novato e o iniciado, o aluno e o Mestre, e até mesmo entre os mestres existem graus de crescimento espiritual. A maior parte de nós adora explorar e ser explorado, e o sistema em que vivemos oferece-nos todos os meios para tal, estejam eles ocultos ou à vista. Explorar é ser-se explorado. O desejo de fazermos uso dos outros para as nossas necessidades psicológicas abre caminho à dependência, e quando dependemos temos de agarrar, de possuir; e aquilo que possuímos possui-nos. Sem dependência, sutil ou grosseira, sem possuirmos coisas, pessoas e ideias, ficamos vazios, tornamo-nos algo sem importância. Queremos ser alguma coisa e, para evitarmos o medo corrosivo de não sermos nada, passamos a pertencer a esta ou àquela organização, a esta ou àquela ideologia, a esta igreja ou àquele templo; portanto somos explorados, e por nosso lado, também exploramos.

Março, 7

O «Eu» é a Posse

A renúncia, o auto-sacrifício, não é um gesto de grandeza que deva ser elogiado e seguido. Queremos possuir, porque sem a posse não existimos. As posses são muitas e variadas. Alguém que não tem posses materiais pode estar apegado ao conhecimento, ás ideias; outro pode estar apegado à virtude, outro, à experiência, outro, ao nome e à lama, e assim por diante. Sem as posses, o «eu» não existe; o «eu» é a posse, a mobília, a virtude, o nome. Por causa deste medo do não ser, a mente está apegada ao nome, à mobília, ao valor; e abandoná-los-á por um nível mais elevado, sendo o mais elevado aquilo que é mais gratificante, mais permanente. O medo da incerteza, de não ser, produz o apego, a posse. Quando a posse não é satisfatória ou provoca dor, renunciamos a ela em troca de um apego mais prazeroso. A posse mais gratilicante é, em última instância, a palavra Deus, ou o seu substituto, o Estado.

… Enquanto não estiverem dispostos a ser nada, e de fato não estão, é inevitável que vocês alimentem a tristeza e o antagonismo. A vontade de ser nada não é uma questão de renúncia, de constrangimento, interior ou exterior, mas de se ver a verdade do que é. Ver a verdade do que é liberta-nos do medo da insegurança, o medo que alimenta o apego e conduz à ilusão de desapego, de renúncia. O amor por o que é é o começo da sabedoria. Só o amor pode partilhar, só ele pode entrar em comunhão; mas a renúncia e o auto-sacrifício são os caminhos do isolamento e da ilusão.

Março, 6

Relacionamento

O relacionamento baseado na necessidade mútua só pode trazer conflito. Independentemente do quanto possamos ser interdependentes, nós estamos a usar-nos uns aos outros com um propósito, com um fim. Quando há um fim em vista, não há relacionamento. Vocês podem usar-me e eu posso usar-vos. Neste uso perdemos o contacto. Uma sociedade hasteada no uso mútuo constitui os alicerces da violência. Quando utilizamos outra pessoa, temos apenas a imagem do fim que temos em vista. O fim, o ganho, impede o relacionamento, a comunhão. Na utilização de outra pessoa, por mais gratificante e reconfortante que seja, está sempre presente o medo. Para evitarmos este medo, temos de possuir. A partir desta posse surgem a inveja, a desconfiança e o conflito constantes. Um tal relacionamento nunca poderá ser uma fonte de felicidade. Uma sociedade cuja estrutura se baseia na mera necessidade, fisiológica ou psicológica, tem forçosamente de alimentar o conflito, a confusão e a miséria. A sociedade é a projecção de vós mesmos no vosso relacionamento com o outro, no qual predominam a necessidade e a utilização. Quando fazem uso de outra pessoa para responderem ás nossas necessidades, físicas ou psicológicas, não estão, de fato, em relação com essa pessoa; não têm verdadeiramente qualquer contacto com ela, nenhuma comunhão com ela. Como é possível estarem em comunhão com o outro quando ele está a ser utilizado como uma peça de mobiliário, para vossa conveniência e conforto? Portanto, é essencial compreender a importância do relacionamento na vida diária.

Março, 5

Tornar-se Profundamente Desperto

A dependência desencadeia o movimento da indiferença e do apego, um conflito constante no qual não há nem compreensão nem libertação. Vocês devem tornar-se conscientes do processo do apego e da dependência, tornar-se conscientes dele sem condenação, sem julgamento, e então perceberão o significado deste conflito de opostos. Se conseguirem estar profundamente conscientes e dirigirem o pensamento no sentido da compreensão do que realmente significa a necessidade, a dependência, então a vossa mente consciente ficará aberta e clarificada relativamente a isto; e então, o subconsciente, com as suas motivações, buscas e intenções ocultas, projectar-se-á no consciente. Quando isto acontece, devem estudar e compreender cada sugestão do subconsciente. Se fizerem isto muitas vezes, tornando-se conscientes das projecções do subconsciente que têm lugar depois de o consciente ter resolvido o problema através do pensamento da forma mais clara possível, então, apesar de darem atenção a outros assuntos, o consciente e o subconsciente resolverão o problema da dependência, ou qualquer outro problema. Assim, fica estabelecida uma atenção constante que, de forma paciente e suave, dará origem à integração; e se a vossa saúde e a vossa alimentação estiverem corretas, isto vos trará, por sua vez, uma plenitude do ser.

Março, 4

Existe um fato mais Profundo que nos Torna Dependentes

Sabemos que somos dependentes — do nosso relacionamento com os outros, ou de alguma ideia, ou de algum sistema de pensamento. Porquê?

… Na verdade, não considero que a dependência seja o problema; penso que existe um factor mais profundo que nos torna dependentes. E, se formos capazes de esclarecer isso, então, tanto a dependência quanto a luta pela liberdade terão muito pouca importância; então, todos os problemas que surgem com a dependência se dissiparão. Portanto, qual é esse factor mais profundo? Será o fato de a mente detestar, temer, a ideia de estar só? E será que a mente conhece esse estado que tenta a todo o custo evitar? Enquanto essa solidão não for verdadeiramente compreendida, sentida, penetrada, dissolvida — qualquer que seja o termo que desejem empregar — , enquanto esse sentimento de solidão perdurar, a dependência é inevitável, e nunca conseguiremos ser livres; nunca poderemos descobrir por nós mesmos aquilo que é verdadeiro, aquilo que é a religião.

Março, 3

Nunca Questionamos o Problema da Dependência

Por que somos dependentes? Dependemos psicologicamente e interiormente de uma crença, de um sistema, de uma filosofia; pedimos a outros um modelo de conduta; procuramos guias que nos ensinem um modo de vida que nos proporcione alguma esperança, alguma felicidade. Portanto, estamos sempre à procura de algum tipo de dependência, de segurança, não é verdade? Será que a mente poderá alguma vez libertar-se deste sentido da dependência? Isto não significa que a mente deva alcançar a independência — isso é apenas a reacção à dependência. Não estamos a falar de independência, da libertação relativamente a um determinado estado. Se pudermos investigar sem a reacção da procura de libertação relativamente a um estado particular de dependência, então poderemos ir muito mais fundo na nossa investigação… Aceitamos a necessidade de dependência; dizemos que é inevitável. Nunca questionamos realmente este assunto a fundo, a razão de cada um de nós procurar algum tipo de dependência. Não é verdade que, lá bem no fundo, nós exigimos, de fato, segurança, permanência? Estando nós imersos num estado de confusão, queremos que alguém nos salve dessa mesma confusão. Assim, estamos sempre preocupados com a forma de escaparmos ou de evitarmos o estado no qual nos encontramos. No processo de evitarmos esse estado, torna-se inevitável que criemos algum tipo de dependência, a qual se transforma numa autoridade para nós. Se dependermos de outro para termos a nossa segurança, para o nosso bem-estar interior, surgem, dessa mesma dependência, inúmeros problemas, e então tentamos resolver esses problemas — os problemas do apego. Mas nunca questionamos, nunca investigamos profundamente o problema da dependência em si próprio. Talvez se nós conseguirmos investigar esta questão de um modo verdadeiramente inteligente, com uma total atenção, então talvez possamos descobrir que a dependência não é de todo o que está em causa — que ela é somente uma forma de fugirmos de um fato mais profundo.

Março, 2

Uma Mente Livre é Humilde

Alguma vez se debruçaram sobre a questão da dependência psicológica? Se a observarem muito profundamente, descobrirão que a maior parte de nós se encontra terrivelmente só. A maioria de nos tem uma mente muito superficial e vazia. A maioria de nós não sabe o que é o amor. Assim, devido a essa solidão, devido a essa insuficiência, à privação da vida, apegamo-nos a algo, apegamo-nos à família; dependemos dela. E quando a mulher ou o marido desviam de nós a sua atenção, ficamos enciumados. O ciúme não é amor; mas o amor que a sociedade atribui à família está investido de respeitabilidade. Essa é outra forma de defesa, outra forma de fugirmos de nós mesmos. Portanto, qualquer forma de resistência alimenta a dependência. E uma mente que é dependente nunca poderá ser livre.

Vocês precisam de ser livres, porque assim poderão observar que uma mente que é livre contém a essência da humildade. Uma tal mente, que é livre e, portanto, humilde, pode aprender — o que não acontece com uma mente que tem resistências. Aprender é uma coisa extraordinária — aprender, não acumular conhecimento. Acumular conhecimento é algo completamente diferente. Aquilo a que chamamos conhecimento é relativamente fácil, porque se inscreve no movimento que parte do conhecido para o conhecido. Mas aprender é um movimento que parte do conhecido para o desconhecido — só assim podem aprender, não é verdade?

Março, 1

O Pensar Gera Esforço

Como posso permanecer livre de pensamentos maus, de pensamentos maus e caprichosos?» Existirá o pensador, aquele que está separado do pensamento, separado dos pensamentos maus e caprichosos? Por favor, observem as vossas próprias mentes. Dizemos: «Existe o «eu» que diz “Este pensamento é caprichoso”, “Isto é mau”, “Tenho de controlar este pensamento”, “Tenho de me ater a este pensamento”.» Isto é o que conhecemos. Será que esse alguém, o «eu», o pensador, o juiz, aquele que julga, que censura, diferente de tudo isto? Será o «eu» diferente do pensamento, diferente da inveja, diferente do mal? O «eu» que diz que é diferente deste mal está perpetuamente a tentar superar-me, empurrar-me para longe, a tentar tornar-se algo. Portanto vocês têm esta luta, o esforço para afastar certos pensamentos, para não se ser caprichoso.

Fomos nós que criámos, através do próprio processo do pensamento, este problema do esforço. Estão a acompanhar o que digo? Então vocês deram origem à disciplina, ao controlo do pensamento — o «eu» a controlar os pensamentos que não são bons, o «eu» que está a tentar não ser invejoso, violento, que está a tentar ser isto e ser aquilo. Assim, deram origem ao próprio processo do esforço quando existe o «eu» e algo que ele está a controlar. Esta é a realidade da nossa existência quotidiana.

Liberdade em relação à Ocupação

Poderá a mente ficar livre do passado, livre do pensamento — não do bom ou mau pensamento? Como posso descobrir isso? Só o posso descobrir se observar aquilo de que a mente se ocupa. Se a minha mente está ocupada com o bom ou com o mau, então está apenas preocupada com o passado, está ocupada com o passado. Portanto, o importante é descobrir com o que é que a mente se ocupa. Sempre que a mente está ocupada, está ocupada com o passado, porque toda a nossa consciência é passado. O passado não se encontra apenas à superfície, mas ao mais alto nível, e a pressão sobre o inconsciente é também o passado…

Poderá a mente ficar livre da ocupação? Ou seja, poderá a mente estar completamente desocupada, e deixar a memória, os pensamentos bons ou maus, fluírem sem escolha? Sempre que a mente está ocupada com um pensamento, bom ou mau, está ocupada com o passado… Se ouvirem com atenção — não apenas verbalmente, mas muito profundamente — então poderão ver que existe uma estabilidade que não vem da mente, que é a libertação do passado.

E no entanto, o passado nunca pode ser posto de lado. Há um observar do passado à medida que ele vai correndo, mas não uma ocupação com ele. Assim, a mente está livre para observar e para não escolher. Onde houver escolha neste movimento do rio da memória, haverá ocupação; e a partir do momento que a mente se encontra ocupada, fica aprisionada no passado; e quando a mente está ocupada com o passado, torna-se incapaz de ver algo real, verdadeiro, novo, original, incontaminado.

Evolução Humana

Será necessário conhecermos a embriagues para que possamos conhecer a sobriedade? Será necessário que vocês conheçam o ódio para que possam saber o que significa ser-se compassivo? Será que precisam de passar por guerras, pela vossa destruição e a dos outros, para saberem o que é a paz? Esta é certamente uma forma de pensar completamente errada, não é assim? Primeiro acreditam que existe evolução, crescimento, um movimento que vai do mau para o bom, e depois deixam que a vossa forma de pensar adopte este padrão. É óbvio que existe um crescimento físico, a pequena planta que se transforma numa grande árvore; há progresso tecnológico, a roda que evoluiu ao longo de séculos e que chegou ao avião a jacto. Mas será que há um progresso psicológico, uma evolução? É isso que estamos a discutir — se haverá um crescimento, uma evolução do «eu», que começa com o mal e termina com o bem. Poderá o «eu», que é o centro do mal, através de um processo de evolução, através do tempo, vir alguma vez a tornar-se nobre, bom? É óbvio que não. Aquilo que é mau, o «eu» psicológico, permanecerá sempre mau. Mas nós não o queremos encarar. Pensamos que através do processo do tempo, através do crescimento e da mudança, o «eu» tornar-se-á enfim realidade. É esta a nossa esperança, o nosso anseio — que o «eu» se irá aperfeiçoar com o tempo. O que é este «eu»? É um nome, uma forma, um feixe de memórias, esperanças, frustrações, desejos, dores, tristezas, alegrias passageiras. Nós queremos que este «eu» continue e se torne perfeito, e portanto dizemos que para além do «eu» existe um «super-eu», um eu mais elevado, uma entidade espiritual que é intemporal, mas uma vez que podemos pensar nela, essa entidade «espiritual» pertence ainda ao campo do tempo, não é? Se podemos pensar nela, isso significa que ela se encontra, como é óbvio, dentro do campo da nossa razão.