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Sobre o medo e a inteligência

A inteligência é a maior segurança para se enfrentar o medo. O problema é: numa crise, quando o medo inconsciente toma conta de você, onde é que há lugar para a inteligência? A inteligência requer a negação do mal que aparece no caminho. Ela requer que se ouça, que se veja e que se observe. Mas quando todo o ser está tomado por um medo incontrolável, por um medo que tem uma causa, mas uma causa que NÃO É IMEDIATAMENTE PERCEPTÍVEL, nessas circunstâncias, onde há lugar para a inteligência? Como lidar com os medos primitivos, arquetípicos, que estão na verdadeira base da psique humana? Um desses medos é o da destruição do eu, o medo de não existir.

Estamos dizendo que, no momento de uma grade onda de medo, a inteligência desaparece. E como lidar com essa onda de medo quando isso acontece? Essa é a pergunta.

Vemos o medo como se fosse os ramos de uma árvore. Mas nós lidamos com esses medos, um a um, e não há liberdade quendo se tem medo. Haverá algum modo de ver o medo sem os ramos?…

Vemos as folhas, os ramos, ou chegamos à verdadeira raiz do medo?…

Estamos dizendo que há medos conscientes e medos inconscientes, e que os medos inconscientes se tornam extraordinariamente fortes em certos momentos e, nesses momentos, a inteligência não está atuando. Como se pode lidar com essas ondas de medo incontrolável?

Esses medos parecem assumir uma forma material. É uma coisa física que domina você.

Perturba-o neurológica e biologicamente… O medo existe, conscientemente ou em profundidade, quando há um sentimento de solidão, quando há um sentimento de abandono total por parte dos outros, um sentimento de isolamento completo, uma sensação de não existirmos, um sentimento de desamparo total. E, nesses momentos, quando o medo profundo surge, obviamente a inteligência não existe e nasce um medo incontrolável e indesejável.

Podemos achar que enfrentamos os medos que conhecemos e, inconscientemente, continuar presos a eles.

Isso é o que estamos dizendo… Podemos lidar com os medos físicos, que são conscientes. Os filamentos da inteligência podem trabalhar com eles.

Você pode até mesmo permitir que esses medos floresçam.

E, então, nesse verdadeiro florescimento, há inteligência. Agora, como você lida com o outro medo? Porque o inconsciente retém esses medos? Ou o inconsciente os acolhe? Ele os retém, eles existem nas profundezas bem conhecidas do inconsciente; ou é uma coisa que o inconsciente adquire do ambiente? Além disso, por que o inconsciente retém os medos? Serão eles parte inerente do inconsciente, da história racial, tradicional do homem? Eles fazem parte da herança genética? Como você lida com o problema?…

Por que, de algum modo, o inconsciente os retém? Por que consideramos as camadas mais profundas da consciência como o depósito, o resíduo do medo? Elas são impostas pela cultura em que vivemos? Pela mente consciente que, não sendo capaz de lidar com o medo, impele-o para baixo e, por isso, o faz permanecer no nível inconsciente? Ou é a mente que, com todo o seu conteúdo, não resolveu seus problemas e está assustada por não ser capaz de resolvê-los? Quero descobrir qual a importância do inconsciente. Quando vocês disseram que essas ondas de medo vêm, digo que elas sempre estão lá, porém, numa crise, você se torna ciente delas.

Antes de tudo, a consciência é constituída pelo seu conteúdo. Sem o seu conteúdo a consciência não existe. Um de seus conteúdos é esse medo básico, e a mente consciente nunca tenta resolvê-lo; ele existe, mas a mente nunca diz: “Eu tenho de lidar com o medo”. Nos momentos de crise, essa parte da consciência é despertada e se apavora. Mas o medo sempre está lá… O medo sempre existe. Faz parte da herança cultural? Ou é possível que alguém nasça num país, numa cultura que não aceita o medo?… É óbvio que não existe essa cultura. E, portanto, estou perguntando: o medo faz parte da cultura ou é inerente ao homem? O medo é uma sensação de não ser, tal como existe no animal, tal como existe em toda coisa vivente; o medo de ser destruído.

Trata-se do instinto de autopreservação que toma a forma de medo.

Será que toda a estrutura das células está com medo de não ser? Esse medo existe em todas as coisas vivas. Mesmo uma formiguinha tem medo de não existir. Vemos que o medo existe e faz parte da existência humana, e que qualquer um se torna bastante consciente dele numa crise. Como se lida com o medo no momento em que surge uma onda de medo? Por que esperamos pela crise?…

Nós dizemos que o medo sempre existe, que ele é uma parte da nossa estrutura humana. A estrutura biológica, psicológica, toda a estrutura do ser está com medo. O medo existe, é parte do mais minúsculo ser vivo, da célula mais diminuta. Por que esperamos que haja uma crise para tomarmos consciência dele? Essa é a forma mais irracional de aceitá-lo. Pergunto: por que é preciso ter uma crise para aprender a lidar com o medo?…

Você diz que pode encarar esses medos de modo inteligente. Duvido que você os enfrente assim. Duvido que você possa fazer uso da inteligência antes de ter resolvido o medo. A inteligência só aparece quando não existe o medo. A inteligência é luz e você não pode lidar com a escuridão quando não há luz. A luz só existe quando não há escuridão. Estou perguntando se você pode lidar com o medo de modo inteligente quando ele existe. Afirmo que não. Você pode racionalizá-lo, pode ver a natureza dele, evitá-lo ou ir além dele, mas isso não é inteligência…

Vejam vocês, estou examinando com cuidado toda reação diante de uma crise. O medo existe; por que você precisa de uma crise para despertá-lo? Você diz que uma crise acontece e você acorda. Uma palavra, um gesto, um olhar, um movimento, um pensamento, esses são os desafios que você diz que causam medo. Pergunto: por que esperamos pela crise?… Um gesto, um pensamento, uma palavra, um olhar, um sussurro, qualquer uma dessas coisas é um desafio…

Por que você fica paralisado? Porque o desafio é necessário para você. Por que você não toma contato com o medo antes do desafio? Você diz que a crise desperta o medo. A crise inclui o pensamento, o gesto, a palavra, o sussurro, o olhar, uma carta. É um desafio que desperta o medo? Digo a mim mesmo: por que as pessoas não deveriam despertar para o medo sem um desafio? Se o medo existe, ele precisa ser despertado. Ou ele está dormindo? E se ele está dormindo, por que está assim? A mente consciente receia que o medo possa despertar? Ela o fez dormir e recusou-se a olhar para ele?…

A mete consciente ficou apavorada ao perceber o medo e, portanto, mantém o medo sob controle? Ou o medo está lá, desperto, e a mente consciente não o deixa florescer? Vocês admitem que o medo faz parte da vida humana, da existência?…

Eu digo a mim mesmo: “Devo esperar por uma crise para que esse medo desperte?”… Se ele existe, quem o pôs para dormir? É porque a mente consciente não pode resolvê-lo? A mente consciente está interessada em resolvê-lo e, não sendo capaz, coloca-o para dormir, reprime-o. E quando acontece uma crise a mente consciente fica abalada e surge o medo. Portanto, eu digo a mim mesmo: por que a mente consciente deve reprimir o medo?…

Senhor, o instrumento da mente consciente é a análise, a capacidade de reconhecimento. Com esses instrumentos, ela é incapaz de lidar com o medo.

Ela não pode lidar com ele. Mas o que é necessário é a verdadeira simplicidade, NÃO A ANÁLISE. Portanto, a mente consciente não pode lidar com o medo; ela diz: quero evitá-lo, não posso olhar para ele. Olhe bem o que você está fazendo. Você está esperando que uma crise o desperte e a mente consciente, durante todo o tempo, está evitando as crises. Ela está evitando, raciocinando, racionalizando. Somos mestres nesse jogo. Portanto, digo a mim mesmo, se o medo existe, ele está desperto. Você não pode adormecer uma coisa que faz parte da nossa herança. A mente consciente se abala quando acontece uma crise. Portanto, lide com ele de uma form diferente… O medo básico é o da não-existência; ele é uma sensação de incerteza, de não ser, de morrer. Por que a mente não descobre esse medo e se arruma com ele? Por que ela deve esperar por uma crise? Você está com preguiça e, portanto, não teve a energia necessária para chegar à raiz dele?…

Dizemos que tudo o que é vivo tem pavor de não existir, de não sobreviver. O medo faz parte de nossas células sanguíneas. Todo o nosso ser tem pavor de não existir, tem pavor de morrer, pavor de ser morto. Portanto, o medo de não existir faz parte de nossa estrutura psicológica, bem como biológica; e eu me pergunto por que uma crise é necessária, por que o desafio deve se tornar importante? Oponho-me ao desafio. Quero estar à frente do desafio e não atrás dele…

Eu sei que vou morrer, mas intelectualizei, racionalizei a morte. Portanto, quando digo que a minha mente está bem à frente da morte, ela não está. Ela só está bem à frente do pensamento — que não está muito à frente…

Eu quero ser bem claro. O medo faz parte da nossa estrutura, de nossa herança. Biológica, psicologicamente, as células cerebrais têm pavor de não existir. E o pensamento diz: “Não vou considerar isso”. Assim, quando acontece o desafio, o pensamento não pode acabar com ele… O PENSAMENTO NÃO PODE CONSIDERAR O FIM DE SI MESMO. Quanto a isso, ele só pode racionalizar. Pergunto a vocês: por que a mete espera por um desafio? Isso é mesmo necessário? Se vocês disserem que é necessário, então vocês estão esperando por um desafio… O desafio desperta o medo. Atenhamo-nos a isso; pergunto à vocês: por que vocês esperam por um desafio? Para despertar o medo?…

Sou totalmente contrário ao desafio. Minha mente nunca aceitará o desafio.O desafio não é necessário para despertar o medo. Dizer que estou adormecido e que o desafio é necessário para me despertar é uma afirmação errada. Então ela está acordada. Agora, o que está dormindo? É a mente consciente? Ou é a mente inconsciente, adormecida, da qual algumas partes estão acordadas?…

Se você está acordado, nenhum desafio é necessário. Portanto, você rejeita o desafio. Se, como dissemos, a morte faz parte da nossa vida, então estamos acordados o tempo todo.

Digo que o medo está debaixo do tapete, levante-o e olhe. Ele está lá e acordado. Portanto, não é preciso um desafio para fazê-lo acordar. Eu sinto pavor o tempo todo, de não existir, de morrer, de não atingir a meta. Este é o medo básico da nossa vida, do nosso sangue, e ele existe, sempre se observando, se guardando, se protegendo. Mas ele não está totalmente desperto. Não está, nem sequer por um momento, adormecido. Portanto, o desafio não é necessário. O que você faz com relação a ele e como você lida com ele, isso vem depois…

É como uma cobra no quarto: ela está sempre lá. Posso procurar em todos os cantos, mas ela está lá. A mente consciente está interessada em como lidar com ela, e como não pode fazê-lo, ela se afasta. É quando a mente consciente recebe um desafio e tenta enfrentá-lo. Você é capaz de encarar uma coisa viva? Para isso não é necessário um desafio. Mas devido ao fato de a mente consciente ter-se escondido do medo, o desafio é necessário…

Minha mente recusa a necessidade de desafio. A mente consciente não permitirá que o desafio a desperte. Ela está acordada. Mas vocês admitem a necessidade de desafio. Eu não. Ele não faz parte da minha experiência. A questão seguinte consiste em saber se quando a mente consciente está desperta para o medo, ela não é capaz de convidar algo que existe… Assim, a mente consciente sabe que o medo está lá, alerta. Então, o que vamos fazer a seguir?…

É mente consciente que tem pavor disso. Quando ela está acordada, não sente pavor. Em si mesma, ela não sente pavor. A formiga não sente pavor. Se ela for esmagada, será apenas isso. É a mente consciente que diz que sinto pavor disto, de não existir. Mas quando sofro um acidente, por exemplo, se meu avião se espatifa, não há medo. No momento da morte, digo: “Sim, agora sei o que significa morrer”. Mas a mente consciente, com todos os seus pensamentos, diz: “Meu Deus! Vou morrer, não quero morrer, não posso morrer, tenho de me proteger” — é dessa coisa que tem pavor…

É o pensamento que cria o medo. É só o pensamento que diz: “Vou morrer, estou só. Não atingi o meu objetivo”. Veja isto: essa é a eternidade intemporal, essa é a eternidade verdadeira. Veja como isso é extraordinário. Por que deveria eu estar assustado se o medo faz parte do meu ser? É apenas quando o medo diz que a vida deve ser diferente que há medo. A mente pode permanecer completamente imóvel? ENTÃO SURGE ESSA COISA. E quando ESSA COISA está desperta, qual é então a raiz central do medo?…

Isso já aconteceu comigo várias vezes, muitas vezes, quando a mente está COMPLETAMENTE ESTÁVEL, sem nenhuma aversão, sem aceitar ou negar, sem racionalizar, sem fugir, não há nenhuma atividade de qualquer espécie. Chegamos à raiz dela, não é mesmo?

Krishnamurti

A mágoa, a deterioração da mente e o choque psíquico

Por que o cérebro, que foi ativo durante um certo período de tempo, se deteriora? E a resposta biológica para isso é que se tiver o suficiente poder de purificação, ele pode viver para sempre. Qual é o elemento de purificação?… Trata-se de uma deterioração da energia ou de uma deterioração das células do cérebro na sua capacidade de produzir energia?… Por que o cérebro não mantém sua qualidade de agudeza, de clareza, de profunda energia? À medida que envelhece, ele parece se deteriorar. Isso acontece mesmo aos vinte anos. Ele já está numa rotina e gradualmente falha. Quero descobrir se se trata de uma questão de idade. Você pode perceber que certas mentes, mesmo as bastante jovens, já perderam essa qualidade da vivacidade. Elas já estão presas a uma rotina, e o fator de deterioração já começou…

É uma questão de condicionamento e de superação desse condicionamento que libera energia e, portanto, capacita a mente a continuar indefinidamente; ou a deterioração tem que ver com uma mente que funciona a partir de decisões?

Tenho por decisões àquilo que opera através da escolha e da vontade. Uma pessoa decide o curso da ação que alguém vai tomar, e essa decisão se baseia não na lucidez, não na observação do campo como um todo, mas de acordo com a satisfação e o prazer que constituem partes desse campo. E a pessoa continua a viver nessa fragmentação. Estes é um dos fatores da deterioração. A escolha que faço de ser um cientista pode estar baseada na influência do ambiente, na influência familiar ou no meu próprio desejo de encontrar o sucesso numa determinada área. Essas várias considerações sobre a escolha de uma profissão em particular, e essa decisão, essa escola e a ação a partir dessa escolha são um dos fatores da deterioração. Eu desprezo resto do campo e só sigo uma área limitada, específica desse campo. As células do cérebro não funcionam como um todo, mas apenas numa direção… NEM TODO O CÉREBRO ESTÁ FUNCIONANDO e eu penso que esse é o fator de deterioração… Tenho observado, durante estes anos todos, que uma mente que seguiu um certo curso de ação, menosprezando a ação como um todo, se deteriora…

Estamos tentando descobrir quais são os fatores de deterioração. Quando descobrimos que fatores são esses, talvez possamos chegar ao resto, ver a totalidade… A busca, baseada na escolha, cujo motivo é a satisfação, a realização ou o desejo de conquista, essa busca deve criar o conflito. Portanto, o conflito é um dos fatores de deterioração. Talvez esse seja até o principal fator de deterioração. Decido me tornar algo; essa decisão é tomada com base no condicionamento criado por uma cultura, que é, por natureza, fragmentária… Essa decisão obviamente causa um conflito em mim… Este é um dos fatores da deterioração do cérebro. ESTOU USANDO APENAS UMA PARTE DELE. O próprio fator de divisão de um setor da minha vida em relação ao resto é um fator de deterioração. Assim, a escolha e a vontade são o fatores de deterioração.

Fixemo-nos nisso. Toda a nossa vida é baseada nesses dois fatores: a discriminação ou a escolha e a ação da vontade na busca da satisfação… Discriminação é escolha. Discrimino entre isto e aquilo… Vejo que a escolha e a vontade em ação são os fatores de deterioração, e se você vê isso, então o problema é o seguinte: há uma atividade que em si esses dois elementos, esses dois princípios?

Se herdei uma mente inerte, estúpida, estou liquidado. Posso ir a quantos templos e igrejas quiser, mas as minhas células cerebrais foram afetadas… Por que a vida em si deveria causar um choque psíquico?… Tudo bem. Aceitemos o choque — choque físico, psicológico, emocional de, repentinamente, perder algo ou alguém, o choque de ficar sozinho, o choque provocado por algo que, de repente, chega ao fim. As células do cérebro recebem esse choque. Agora, o que você fará com relação a isso? Esse choque é um fator de deterioração?… Meu filho está morto, meu irmão está morto. É um choque tremendo, porque moramos juntos, brincamos juntos. Esse choque paralisou a mente, o choque deve paralisá-la temporariamente. O fator importante é como a mente se sai disso. Ela sai com mágoa, com todas as implicações da mágoa, ou ela sai sem uma única mágoa?…

Quando meu irmão ou meu filho morre, toda a minha vida muda. A mudança é o choque. Tenho de sair dessa casa, tenho de ganhar a vida de um modo diferente; tenho de fazer um montão de coisas. Tudo isso está subentendido na palavra “choque”. Ora, estou perguntando se esse choque deixou uma marca, uma ferida, ou não. Se não deixou uma única marca, uma única mágoa, um único arranhão ou uma sombra de tristeza, então a mente sai desse choque TOTALMENTE REFEITA, TOTALMENTE NOVA. Mas se ela foi magoada, se se tornou embrutecida, então esse É UM FATOR DE DETERIORAÇÃO. Como a mente sabe conscientemente que não está magoada de forma intensa e profunda?…

Vamos analisar a questão… O choque é natural, porque, de repente, falando por metáforas, fui posto na rua. Neurológica, psicológica, interior e exteriormente, a coisa toda mudou. Como a mente se sai disso? Eis a questão. Ela sai com mágoa ou sai completamente PURIFICADA de todas as mágoas? Essas mágoas são superficiais ou profundas o bastante que a mente consciente não tenha a possibilidade de conhecê-las num dado momento e, portanto, para que elas continuem se repetindo e repetindo indefinidamente? Tudo isso é perda de energia. Como a mente descobre se está profundamente magoada?… Como a mente as mágoas profundas? O que é uma mágoa?… Existe mágoa profunda?…

Meu irmão morre, meu filho morre; o marido, a mulher, quem quer que seja. Trata-se de um choque. O choque é um tipo de mágoa. E eu pergunto: a mágoa é muito profunda? E o que eu quero dizer com “mágoa profunda”?… O que é realçado?… A dor, da qual vocês não estão conscientes, e o choque revela a dor. Existia a dor ou existia a causa da dor?…

A dor já existia. Ela é um dos fatores da deterioração. Meu irmão está morto. Esse fato é absolutamente irreversível. Eu não posso trazer meu irmão de volta… Há um choque. Esse choque é uma mágoa profunda. A causa da mágoa já existia e o choque apenas a revelou? A mágoa existia porque eu nunca a havia encarado? EU NUNCA HAVIA ENFRENTADO A SOLIDÃO. Eu nunca havia enfrentado o sentimento de solidão, que é um dos fatores da mágoa.

Agora, antes do choque, eu posso perceber essa solidão? Posso antes do choque, saber o que é estar sozinho? Antes do choque posso falar em apoio, dependência, todos os fatores de mágoa, causas da mágoa, de modo que, quando ocorrer o choque, o que acontece? NÃO TENHO NENHUMA MÁGOA. Isso está certo…

Observo a vida.Observo quais são as implicações do apego ou da indiferença, ou do cultivo da independência, porque eu não devo ficar dependente. A dependência causa dor, mas o cultivo da independência também pode causar dor. Portanto, EU OBSERVO A MIM MESMO, observo e vejo que qualquer tipo de dependência deve inevitavelmente causar uma grande dor. Então quando o choque vem, a causa da mágoa já não existe. UMA COISA TOTALMENTE DIFERENTE ACONTECE.

Você diria que o choque é “sofrimento”?… Se você passou pela solidão, pelo apego, pelo medo, não buscando a independência ou o desapego como um oposto ao apego, então, o que acontece? Quando o choque da morte vem, o que acontece? Você fica magoada?…

Olhe: o sofrimento é dor. Nós usamos esse sofrimento para abranger a solidão, o apego, a dependência, o conflito. Usamos todo o campo de fuga do homem em relação ao sofrimento e à causa do sofrimento. Usamos a palavra “sofrimento” para incluir tudo isso. Ou você gostaria de usar a expressão “a totalidade da dor”? A totalidade da dor oculta e visível… O choque traz toda essa dor à superfície… O que acontece? NÃO SEI COMO LIDAR COM ELA. Choro, rezo e vou ao templo. É isso o que acontece… Faço tudo, tentando sair dessa tortura imposta pela dor. Por que o choque revelaria tudo isso?

Ao ver o mendigo na estrada, o leproso ou o camponês trabalhando profundamente amargurados, por que isso não comove a mente humana? Por que o choque deveria fazer isso?… Por que esse mendigo não me choca particularmente, e a toda a sociedade? Por que isso não me comove?…

Estou lhe fazendo uma pergunta simples. Você vê o mendigo na estrada. Por que isso não é chocante para você? Por que você não chora? Por que choro apenas quando o MEU filho morre? Eu vi um frade em Roma. Chorei ao ver a dor de alguém acorrentado a um poste chamado religião. Nós não choramos naquela ocasião, mas choramos nesta. Por quê? Há um “porquê”, obviamente. Há um “porquê” para explicar a razão de nossa insensibilidade.

A mente está adormecida. O choque desperta.

É justamente isso. O choque a desperta e nós somos acordados para a dor, que é a nossa dor — nós não fomos acordados antes para a dor. Isso não é uma teoria. É dor. Agora, o que faz com a dor? A dor é sofrimento. O que acontece?… O que faço com a dor? Ela é intensa ou é superficial?… Você diz: “Ela é muito intensa”. Não a chame de intensa. Ela não tem nenhuma medida. Ela não é intensa ou superficial. Dor é dor. E então? VOCÊ FICA COM ELA, SUPORTA ESTA MÁGOA?… O que devemos fazer com a dor? Ignorá-la?… Vou ao analista para me livrar da dor? Leio um livro, vou ao Templo ou para Marte com o intuito de me livrar da dor? Como devo me livrar dela?…

Você está sofrendo. Você é essa dor. CONSERVE-A. Você está lá. VOCÊ A TOMA NOS BRAÇOS. Ela é o seu bebê. E então? Descubramos! Eu sou essa dor — a dor do camponês, a dor do mendigo, a dor do homem rico e angustiado, a dor do frade e de todo o resto. Eu sou essa dor. O que devo fazer?…

Nós perguntamo quais são os fatores de deterioração das células do cérebro e da mente. Dissemos que um dos principais fatores é o conflito. Outro fator é a mágoa, a dor. E quais são os outros fatores? O medo, o conflito, o sofrimento e a busca do prazer, sejam eles causados pela ideia de Deus, de assistência social ou de dedicação ao país. Portanto, esses são os fatores de deterioração. Quem deve agir? O que devo fazer? A menos que a mete resolva isso, sua ação produzirá mais sofrimento, mais dor.

A deterioração será acelerada.

Esse é um fato óbvio. Nós chegamos à questão da dor, da mágoa, do sofrimento e ao fator do medo, da busca de prazer, como sendo as causas da deterioração. O que devo fazer? O que a mente deve fazer?… Se está com dor, como pode agir?… Por que a dor deveria passar? Tudo o que você busca é fazer com que ela passe. Por que ela deveria passar? NÃO HÁ NENHUMA SAÍDA, não é mesmo?…

Você tem de viver com ela.

Como você vive com algo que é dor, que é tristeza? Como você vive com isso?… O que a mente deve fazer com essa mágoa profunda que causa dor, sofrimento, com essa batalha eterna que causa a deterioração das células cerebrais?…

Observar? Observar o quê? O meu sofrimento, a minha dor são diferentes do observador? São? A dor é diferente de quem a observa? Portanto, o que acontece? O observador diz: “Tenho de me livrar da dor”. Mas ela persiste no fim da jornada. Agora, o que acontece quando o observador é o observado?…

Todos nós queremos nos livrar da dor. Seria uma idiotice dizer: “Eu tenho de suportar a dor”. Mas é o que a maioria das pessoas faz e, por suportarem a dor, elas se comportam neuroticamente, indo a templos e assim por diante. Portanto, é um absurdo dizer que temos de suportar a dor. Pelo contrário, sabendo que essa dor é um dos principais fatores de deterioração, como pôr fim a ela? Senhor, quando a dor acaba, a mente se torna EXTRAORDINARIAMENTE EXALTADA; não é apenas uma mente insensível e sem dor. Quer saber o segredo disso?

Eu lhe direi. Vocês querem saber? Abordaremos a questão de uma forma diferente. É possível que uma mente nunca se magoe? A educação nos magoa, a família nos magoa, a sociedade nos magoa. Estou perguntando: “Pode a mente, vivendo num mundo onde há mágoa, nunca se magoar?” Vocês me chamam de tolo. Vocês me chamam de grande homem. Vocês me chamam de iluminado ou de sábio ou de velho estúpido. Chamam-me de qualquer coisa; como eu posso não me magoar? É o mesmo problema exposto de forma diferente… Esse é o segredo. O que vocês farão com todas as mágoas que os seres humanos acumularam? Se vocês não resolverem esse problema, façam o que quiserem, ele lhes trará mais tristeza. Continuemos. Acabamos de perguntar o que acontece quando o observador é o observado…

A observação sem o observador significa que há apenas aquela coisa que você chama de dor. Não há nenhuma entidade que diga que eu deva ir além da dor. Quando não há nenhum observador, há dor? É o observador que é magoado. É o observador que se ilude. É o observador que diz que está chocado. É o observador que diz: “Eu sei o que é a dor”. Agora, você pode observar essa coisa chamada dor sem o observador? Não é um vazio. O que acontece?…

Senhor, essa é uma coisa muito difícil, porque nós estamos sempre vendo a dor do centro, como o observador que diz: “Eu tenho que fazer algo”. Portanto, a ação está baseada no centro que faz algo em relação à dor, mas quando o centro é a dor, o que você faz? O que há para ser feito?

O que é a compaixão? A palavra “compaixão” significa paixão; como ela surge? Pela busca de uma atividade? Como ela surge? Quando o sofrimento não está presente, o “OUTRO” está. Isso significa algo para você? Como uma mente que sofre pode conhecer a compaixão?…

Nós estamos observando o fato; “o que é” o sofrimento, quem está sofrendo? Esse é um fato absoluto. Eu sofro e minha mente está fazendo tudo o que pode para fugir do sofrimento. Quando ela não foge, então ela observa. Então, quando o observador observa de perto, de muito perto, ele é de fato o observado, E ESSA MESMA DOR SE TRANSFORMA EM PAIXÃO, QUE É COMPAIXÃO. As palavras não são a realidade. Assim, NÃO FUJA DO SOFRIMENTO, o que não significa dizer que você se torne um mórbido. VIVA COM O SOFRIMENTO. Você vive com o prazer, não vive? Por que você não pode viver com o sofrimento de um modo pleno? Você pode viver com ele no sentido de não fugir dele? O que acontece? Observe. A mente é muito clara, muito esperta. Ela está diante do fato. O verdadeiro sofrimento, que se transforma em paixão, É ALGO ENORME. Disso surge uma mente que não pode ser magoada. Ponto final. Esse é o segredo.

Por que nos conformamos com a superficialidade de nossa vida?

A maior parte de nossas vidas é muito superficial, e é possível viver em grande profundidade e agir superficialmente? É possível que a mente habite ou viva em grande profundidade?… Vivemos superficialmente, e a maioria de nós está satisfeita com isso.
Alguns não estão satisfeitos. Porém, não sabem como aprofundar.
A maioria de nós suporta a vida. Agora, como a mente pode penetrar em profundidades maiores?… Eu afirmo que ela precisa de uma reserva de energia, de um impulso, e pergunto: como deve ser desenvolvida essa energia?
Vamos esquecer a palavra “energia”, por enquanto. Eu levo uma vida muito superficial, e vejo a beleza, intelectual ou verbal, de uma vida, de uma mente que tenha penetrado em si mesma de um modo realmente profundo, e pergunto: Como isso pode ser conseguido?… Como isso deve ser feito? O pensamento pode se aprofundar? O pensamento pode se tornar mais profundo?… Estou perguntando se o pensamento, que é tempo, que é o passado, pode chegar a essa profundidade?
Eu vejo muito claramente que qualquer profundidade mensurável ainda constitui um tipo de avaliação. Eu vejo esse aprofundamento como se ele dependesse do tempo; pode levar anos e, portanto, eu o vejo intelectualmente, raciocinando; vejo que a profundidade significa uma qualidade intemporal, incomensurável, um infinito cujo fundo não pode ser alcançado.
Vejo que a minha vida é uma vida superficial. Isso é óbvio. Portanto, eu digo a mim mesmo: o pensamento pode chegar a essa profundidade, já que ele é o único instrumento que tenho?
Eu levo uma vida muito superficial, e quero descobrir por mim mesmo se há uma profundidade que não seja mensurável, e constato que o pensamento não pode alcançá-la, porque o pensamento é um tipo de medida, o pensamento é tempo, o pensamento É RESPOSTA DO PASSADO; portanto, O PENSAMENTO PROVAVELMENTE NÃO PODE ENTENDÊ-LA. Então, o que isso causará? O pensamento não pode entendê-la e este é o único instrumento que o homem tem, então, o que ele deve fazer? O pensamento na sua atividade, na sua função, CRIOU ESTE MUNDO SUPERFICIAL NO QUAL VIVO, DO QUAL FAÇO PARTE. Isso é óbvio. Ora, é possível para a mete, sem o uso do pensamento, compreender algo que seja incompreensível? Não só em alguns momentos do meu sono ou quando estou andando sozinho, MAS VIVER ASSIM. Minha mente diz que a profundidade precisa ser descoberta para que a mente tenha essa qualidade — tenho de estar ciente dessa profundidade estranha e incompreensível de ALGO que não tem nome.
[…] Nós já discutimos isso: o pensamento é tempo, o pensamento é cálculo, o pensamento é resposta da memória, o pensamento é conhecimento, é experiência, passado; portanto, o passado é tempo. Esse pensamento tem de atuar sempre superficialmente. Isso é simples. Não se trata de uma abstração, mas de uma realidade. Mas o que é o pensamento? O pensamento não pode entender isso. Isso é tudo. Deixe-o como está.
[…] Ao levar uma vida superficial, como os seres humanos levam, eu digo a mim mesmo que eu gostaria de atingir essa profundidade onde há grande amplitude e beleza, algo imenso. Ora, o que devo fazer? Qual é a outra operação ou o outro movimento que deve acontecer quando o pensamento não está funcionando? A mente pode continuar sem limites?… Durante toda a sua vida, você conheceu o que são limites. Agora, pergunto a vocês: A mente pode existir sem limites?
[…] Eu quero descobrir se a minha mente, que foi condicionada ao movimento de avaliação — avaliação que equipara comparação, imitação, aquiescência, um ideal, uma resistência que a salvaguarda da não-avaliação — eu quero descobrir se a mente pode dizer: “Agora eu entendi todo o movimento de avaliação e vejo onde é o seu legítimo lugar e onde ela não cabe?”…
O pensamento examinou a mente, analisou-a num determinado momento; o pensamento indagou, insistiu, ponderou e a firma ter visto todo o movimento de avaliação e que a verdadeira percepção desse movimento é o fim desse movimento. A verdadeira percepção do movimento, isto é, o próprio ato de ver é a atividade e o fim dessa atividade. Ver que esse movimento é tempo, cálculo, ver todo o seu esquema, a sua natureza, a sua estrutura, essa verdadeira percepção age no sentido de colocar fim a esse movimento. Portanto, o ato de ver (sem ação do pensamento) é o ponto final. Não há nenhum esforço envolvido nisso. Você diz: “Eu vi isso”. Viu mesmo?
Krishnamurti

O descondicionamento está no colapso cerebral

Nós dissemos que o conhecido é a consciência — que o conteúdo da consciência é o conhecido. Ora, há algo fora disto, algo que não é conhecido, que é totalmente novo e que ainda não existe nas células do cérebro? E se está fora do conhecido, é reconhecível? — porque, se for reconhecível, ainda está no âmbito do conhecido. E está disponível só quando o processo de reconhecimento e da vivência chega ao fim. Eu quero me limitar a isso. Pupul perguntou: Isso existe no que é conhecido ou no que está fora do conhecido e, se está fora do conhecido, já se encontra nas células do cérebro? Se está nas células do cérebro, já é conhecido, porque as células do cérebro não podem conter algo novo. No momento em que está nas células cerebrais, já é tradição.
Eu gosto de pesquisar a fundo. Há algo mais do lado de fora do cérebro? Isso é tudo. EU DIGO QUE HÁ. Porém, todo processo de reconhecimento, de experiência, está sempre dentro do campo do conhecido e qualquer atividade das células cerebrais, afastando-se do conhecido, tentando examinar algum outro campo, está no âmbito do que já se conhece.
Como se sabe que existe alguma coisa?
Você não pode saber. Há um estado em que a mente não conhece nada. Há um estado no qual o reconhecimento e a experiência, que são a atividade do conhecido, CHEGAM TOTALMENTE AO FIM.
Repare: o organismo, as células do cérebro, chegam a um fim. Tudo sucumbe; HÁ UM ESTADO TOTALMENTE DIFERENTE… Os sentidos estão em inatividade temporária…
Quando o conteúdo da consciência, com suas experiências, suas buscas, seu desejo por algo novo, INCLUSIVE SUA ÂNSIA POR SE LIBERTAR DO CONHECIDO, chega a um fim, SÓ ENTÃO A OUTRA QUALIDADE DE SER PASSA A EXISTIR. A qualidade anterior tem um motivo; a mais recente não tem. A mente não pode chegar nessa desconhecida qualidade de ser através de um motivo. O motivo é o conhecido. Portanto, a mente pode chegar a uma conclusão que diga: “Não vale a pena investigá-la; eu sei como fazê-la chegar a um fim, a ignorância é parte desta necessidade de experimentar mais?” Quando essa mente chega a uma conclusão — a uma conclusão que não seja causada pelo esforço consciente, em que há motivo, vontade, direção — então, A COISA EXISTE…
Quando não há movimento de reconhecimento, de vivência, de motivo, acontece a liberdade em relação ao conhecido… Essa atividade chegou temporariamente a um fim: isso é tudo.
[…] O cérebro funciona dentro do âmbito do que se conhece; nesta operação, há reconhecimento. Mas, quando o cérebro, quando a sua mente está COMPLETAMENTE QUIETA, você não vê a sua mente quieta. Não há conhecimento de que a sua mente esteja quieta. Se você sabe disso, ela não está quieta, porque nesse caso existe um observador que diz: “Eu sei”. A quietude sobre a qual estamos falando é não-reconhecível, não-experienciável. Em seguida, surge uma entidade que quer lhe dizer isso através da comunicação verbal. No momento em que ela, a entidade, passa a se comunicar, a mente, em repouso, não está mais presente. APENAS OLHE PARA A MENTE. Algo advém além dela. Ela existe para o homem. Não estou dizendo que ela existe sempre. Ela existe para o homem que entendeu o conhecido. Ela existe e nunca desapareceu e, embora, o homem se comunique, ele sente que a mente nunca se foi; ela existe.
[..] Comecemos de novo. É por acaso que ESSE OUTRO ESTADO DE SER pode acontecer a nós, ou se trata de uma exceção? Isso é o que estamos discutindo agora. Se é um milagre, pode acontecer com você? NÃO É UM MILAGRE; NÃO É ALGO DADO DO ALTO, de modo que alguém pode perguntar: Como isso aconteceu com esta pessoa e não a outra — certo?
O que podemos fazer?
Eu digo que vocês não podem fazer nada — o que não significa não fazer!…
Isso faz com que a iluminação entre em ação.
Você tem de atingir ESSA COISA com muita clareza. Você tem de atingi-la muito iluminadamente — em toda atividade — e, à medida que o corpo e os sentidos ficam iluminados, os dias e as noites passam facilmente. Você vê que se morre a todo minuto.
Para expressar tudo isso de uma forma diferente, chamaremos nesta ocasião de “ESSA” a energia infinita e, de a outra, a energia criada pelo medo e pelo conflito, totalmente diferente de “ESSA”. Quando não há conflito, ESSA energia infinita está sempre se renovando. A energia que é falha é a que nós conhecemos. Qual é a relação da energia que falga com “ESSA”? Não existe nenhuma relação.
Krishnamurti

O eu é uma série de embaraços

Pergunta: Como a mente pode se libertar dos opostos?

Krishnamurti: Eu vos direi. Se fordes mental, emocional e fisicamente pobres, haveis de querer ser ricos, não é assim? Pretendereis possuir uma mente rica, uma emoção forte. Ora, isso não é nada mais do que perseguir um oposto e o oposto encerra a causa da qual fugis. Aquilo que perseguis encerra aquilo de que fugis. Quando sois pobres, quereis ser ricos e sabeis, por meio do contraste, o que é ser rico. Ides atrás da riqueza com a vossa mente e criais assim um oposto por meio do desejo; ao passo que, no reconhecimento do fato de que sois pobres e no vos esforçardes por vos libertar mesmo da ideia da pobreza, destruireis o oposto.

Se não gostardes de alguém, é inútil o dizer que deveis amar esse alguém; isto estimula a hipocrisia. Se, porém, vos esforçardes por vos libertar da ideia de desgosto, ireis vos libertando da ideia de distinção entre gosto e desgosto. Não podeis fazer isto mentalmente; não podeis dizer “preciso me libertar do desgosto” e, intelectualmente, vos iludir a vós próprios. O reconhecimento do fato daquilo que sois, se de tal não vos tentardes evadir, conduz à libertação dos opostos.

Se estiverdes solitários, continuamente estareis buscando companhia, esforçando-vos para sufocar vossa mente com ideias, prazeres, querereis engolfar-vos nas boas obras; porém, a ferida da solidão, embora a cubrais de múltiplas sensações, fica ainda por curar. Ao passo que, se vos aperceberdes de vossa solidão e lhe fizerdes frente, sem buscar dela fugir, no próprio ato de a defrontardes, integralmente, tornar-vos-eis vigilantes. Começareis a ver o modo pelo qual vos esforçais para fugir da solidão; percebereis os sutis enganos da mente. De cada vez que vos aperceberdes de vossa fuga, ficareis enriquecidos pela sabedoria em virtude desse apercebimento.

Ainda que eu possa variar os termos, é disto que falo todos os anos. Tentai aperceber-vos de vossos próprios desejos, o que não é tornar-vos eu-conscientes. Só vos tornais eu-conscientes quando perseguis um oposto por causa do desejo, quando buscais fugir da solidão para a riqueza de uma multidão de ideias. Quando vos esforçais, sem desejo, por libertar-vos da solidão por meio da ação da vigilância, então não mais criais resistência, a qual é eu-consciência, porém estareis libertando a mente da limitação. A pura ação é, portanto, um processo de desnudamento, não de aquisição.

A mente é formada de pensamento, vontade, concepção, reflexão e entendimento. Ora, não podereis possuir entendimento. Ora, não podereis possuir entendimento se a vossa mente estiver carregada pelo desejo, pela ânsia do querer; este querer cria uma ideia e, por isso, uma recordação. Se, porém, a mente não estiver tentando engolfar e se esforçar por se libertar da causa da resistência que é o contraste, então haverá uma mente descarregada e só uma mente tal pode compreender, pois que se completa s si própria no apercebimento emocional.

Uma das coisas mais difíceis é libertar a mente da ideia do passado. Se, por exemplo, tiverdes um regozijo decorrente de uma experiência emocional, vossa mente há de querer retroceder e demorar-se nela, volta a passar pela experiência. Criais assim uma lembrança pela perpetuação de uma ideia e esta lembrança torna-se eu-consciência, o “eu”, que julga ser real e que imaginais poder progredir até tornar-se, por fim, a própria Vida. O “eu” nada mais é que uma série de embaraços oriundos do desejo; e para se libertar desta ideia de eu-consciência, que é morte, e da ideia de unidade, de progresso, de inclusividade, de auto-identificação, a mente necessita completar-se a si mesma em cada experiência. Isto é, necessitais vos tornar plenamente apercebidos em cada instante, o que não implica ter mente preguiçosa.

Se fizerdes observações sobre a vossa própria mente, haveis de verificar o como ela toma ideia após ideia, incidente após incidente, lembrança após lembrança e sobre elas se demora criando lamentações para o passado e esperanças para o futuro. Por esta maneira gastais vossos dias e anos e criais um hábito de pensar; neste hábito viveis e este hábito torna-se a vossa vida, a vossa consciência, todo o vosso viver e agir. Uma mente que continuamente se demora em incidentes, em lembranças, em ideias, está continuamente cavando seu próprio tumulo.

o EU nada mais é que frustração

Do que vou dizer nesta manhã, alguns dentre vós podem concluir que apenas estou destruindo, sem vos dar ideias construtivas em virtude das quais possais viver; se, porém, refletirdes cuidadosamente no que digo, haveis de verificar que no vos despojardes de todas essas coisas que ao redor de vós haveis construído como essenciais, nesse próprio processo de desnudamento, reside a beatitude da Verdade. No processo de vos libertardes das aquisições, seja de ideias, seja de coisas, ou sensações, tornai-vos superiormente inteligentes — não dessa inteligência erudita que provém dos livros, mas da percepção direta, essa inteligência de valor supremo, que é o verdadeiro discernimento. Não podeis discernir, compreender, penetrar, a não ser que tenhais a mente perfeitamente livre; e no vos libertar de embaraços, está a inteligência natural que é essencial para a compreensão da Vida.

Alguns de vós que aqui tendes estado durante os três últimos dias, podem achar-se impacientes pelas minhas repetições; tenho, porém, notado que, mesmo aqueles que ouviram não alcançaram inteiramente aquilo que tenho em vista transmitir. Quero demonstrar-vos que a Verdade não se realiza pela mera imitação, a ela não se chega por meio do culto ou daquilo que denominais meditação; e mais, que realizar a Vida não é ir atrás dela.

Pensais que, perseguindo, indo atrás da Verdade, realizareis a eternidade. Eu vos quero mostrar que o processo é perfeitamente o contrário, isto é, que dado não terdes a possibilidade de saber o que é a Verdade, não podeis busca-la. Quando buscais algo, é porque já concebestes o que é, sendo, portanto, coisa morta. Não podeis perseguir a Verdade, não podeis ir correndo atrás dela, porque ela sempre está presente. Não vos é possível procurar algo que tendes sempre diante de vós; seria o mesmo que correr atrás da vossa própria sombra. Posto que possais ler e ouvir diversas coisas a seu respeito, não podeis saber o que seja a Verdade; portanto, não podeis persegui-la. Vossa mente não pode estar sobrecarregada pela ideia do que seja a Verdade. Aquilo que concebeis como Verdade, já não é a Verdade: aquilo que concebeis como tal é apenas vossa imaginação, uma ideia, uma sensação, enquanto que a Verdade não é nenhuma dessas coisas. Uma mente finita não pode compreender a infinitude.

Não podeis segurar o vento em vossos punhos; não podeis alcançar o inconcebível, o indescritível, e, no entanto, é isto o que cada qual de vós se esforça por fazer. Nesta mera tentativa, apenas criais uma ideia a respeito do que seja a Verdade; disto provem uma finalidade, que não é senão morte. Nada mais é que desperdício de energia e tempo, uma luta inútil, o tentar segurar alguma coisa que não pode ser agarrada. Se realmente compreenderdes isto, então fareis uso de vossos esforços na direção correta.

Ora, a verdadeira espiritualidade — pessoalmente, eu não gosto desta palavra, pois tem sido lamentavelmente confundida com sentimentalidade, estupidez e histeria — exige grande persistência de inteligência, a inteligência proveniente da continuada harmonia, da direta percepção. Em momentos de lucidez, a simples intervalos, tendes um sentimento intuitivo de algo que é perdurável, de algo que é indescritível, como um êxtase. Depois que isso passa, dedicais vosso tempo a retroceder para alcançar de novo e deter aquilo que haveis sentido nessas raras ocasiões; esforçai-vos por vos recordar, repelindo tudo quanto vos embaraça essa lembrança. Por esse modo vos esforçais para dominar as circunstâncias e a ideia de que delas tendes que vos libertar nasce dentro de vós. Se refletirdes a respeito de vós mesmos, verificareis que é isso o que estais fazendo, que é isto que o suposto pesquisador está se esforçando por efetuar.

Ansiais por ser guiados e encontrais um guia. Esse instrutor, esse mestre, salvador, modela-vos de conformidade com sua imagem. Por esse modo, vossos instrutores são os vossos destruidores, pois que vos modelam segundo um padrão, negando-vos a liberdade e estabelecendo sistemas e divisões. Aquele a quem seguis, a quem cultuais é, na verdade, o vosso destruidor. Pela indolência do desejo criais um instrutor e por esse modo vos tornais exploradores de vós próprios.

Ora, eu quero mostrar-vos que pelo vosso próprio reto esforço, pelo vosso viver, é que advém o êxtase da Vida, a tranquilidade da completude que não finda.

Possuindo a lembrança daquilo que se supõe ser verdadeiro e esforçando-se por se apegar a essa ilusão, cria-se um incessante conflito. Não vos esforçais por compreender a Vida tal qual ela é. Ao contrário, tendes ideia formada do que seja o céu ou nirvana, do que seja Deus, a Vida, a Verdade, e tentais forçar a vossa mente à compreensão dessa ideia que estabelece uma luta, uma série de resistências e, com essa atitude mental, tendes a esperança de chegar a um estado em que todo o esforço cessará.

Se prestardes atenção às operações de vossa mente, verificareis que vos apegais a recordações, sejam elas agradáveis ou desagradáveis e por esse meio, esperais alcançar êxito na realização da Vida. Isto é, possuis uma experiência que não haveis compreendido completamente, que não haveis vivido e terminado integralmente; por conseguinte, dela tendes recordação e, sobrecarregados por essa recordação vos esforçais por viver, por vos ajustar ao presente. Há, portanto, contínua aflição e infelicidade. Vossas ações são produtoras de tristeza pelo fato de vos esforçardes por viver no presente com uma mente anuviada pelo passado. Portanto, não tendes compreensão do presente, o único que encerra o perdurável. Se refletirdes sobre os vossos pensamentos e sentimentos, haveis de verificar que estais continuamente buscando ideias cada vez maiores, cada vez maiores estímulos, cimos cada vez mais altos para subir. Pela falta de entendimento do presente, esperais consecuções futuras, o que nada mais é que amontoar pó sobre pó. Isso nada mais é do que um feito intelectual, a qual denominais progresso. Atravessais a vida indo de uma para outra sensação, de uma para outra esperança, de uma para outra ideia, de um instrutor para outro, dando de contínuo satisfação ao vosso desejo. Quando mais cedeis a essa ânsia, mais ela cria objetos, ideias, salvadores, guris, para sua própria satisfação. Desse modo, a Verdade torna-se nada mais que um estímulo, uma concepção; e, portanto, jamais podereis realizá-la.  A Verdade é indescritível, ninguém vos pode estimular na direção dessa realização; se alguém o fizer, tal já não será a Verdade. Se alguém vos der uma ideia dela, se alguém vo-la descrever, não é mais a Verdade. Se alguém vos expuser seu êxtase, seu perfume, acautelai-vos dessa pessoa, pois que ela própria está cativa da sensação, e vós mais não vos tornareis que escravos dessa mesma sensação.

Espero que compreendais isto, pois que se assim não for, minhas palestras serão um desperdício de tempo.

Não vos é dado seguir a ninguém, posto que possais ponderar sobre suas ideias; não vos é possível conceber o que seja a Verdade, pois que ela é inconcebível, ilimitada; algo que apenas vos é dado realizar por meio de intenso apercebimento emocional. Ela nada tem que ver com estímulos, com histerismos; exige uma cuidadosa reflexão, uma mente plástica, e uma intensa vigilância na pesquisa.

Por meio da vista e do contato, tendes a sensação, da sensação o pensar e do pensar nascem as ideias. Assim, pois, estais criando desejos pela vossa percepção, pelo vosso contato e vossas sensações. Tendes muitas camadas de desejo e estas camadas em seu conjunto, se me é permitida a expressão, produzem a autoconsciência, a individualidade, o ego, a “eu-dade”, a personalidade. Estou servindo-me destes termos, em sinônimo, para deixar implícito que, onde quer que haja desejo de qualquer espécie, há autoconsciência; ao passo que pela cessação do desejo, manifesta-se a  inteligência e a perfeita harmonia. Haveis de verificar que aquilo que denominais o ego, a personalidade, a individualidade, a autoconsciência, nada mais é do que uma série de embaraços criados pelo desejo. Portanto, o “Eu”, nada mais é do que uma frustração, ou o reconhecimento por meio de choques oriundos da reação, de um empecilho. Isto é, sois conscientes de vós próprios como personalidade, como ego, somente quando sois frustrados, isto é, quando há resistência.

Portanto, essas camadas de desejo, são produzias pela sensação, pelo contato, pela percepção. Há um desejo intenso e por meio deste, surge a ideia da distinção, portanto da resistência. Tendo criado distinções de personalidade, ego, individualidade, imaginais que a realização da Verdade, essa beatitude eterna, só se encontra pela evolução, pelo processo deste empecilho a que chamais “Eu”. Isto não é exatamente uma observação intelectual, uma simples ideia filosófica. Se refletirdes sobre ela, verificareis que quando estiverdes intensamente interessados, quando estiverdes plenamente concentrados, não haverá mais este embate do esforço. O que chamais ego, e que nada mais é que resistência, constitui uma ilusão, um erro; e um erro projetado através do infinito, por amplo, por glorificado que esteja, continua sempre sendo erro.

Não pretendo que aceiteis o que digo, porém, fazei-me o favor de refletir sobre isto com cuidado e verificareis quão natural, quão simples isto é. Homem de suprema inteligência é aquele que em si próprio está liberto de toda a resistência, a qual se cria por meio da distinção das ideias. Essa distinção surge do desejo — “eu quero”, “eu posso”. Tendo este desejo como causa construís um edifício completo de vida; todo o vosso pensamento se baseia sobre a separação, a distinção, a resistência. Quando buscais unir-vos com a Verdade, desejais manter vossas distinções e pretendeis que todos se vos assemelhem. Ansiais pela isenção de esforço na uniformidade a que chamais Verdade. A Verdade não pode ser assim medida; ela é livre, infinitamente sutil, sempre nova, jamais estática. Para realizá-la tendes que possuir a mente esquisitamente plástica, liberta de ideias cuja causa seja o desejo; haveis porém, esquecido a causa, que é o desejo, e apegai-vos ao efeito, que é o ego, a personalidade, a individualidade.

Ora, este ato de tornar-se apercebido das coisas é plena eu-consciência, e ninguém vos pode informar se estais ou não plenamente autoconscientes; só chegais a isto pelo vosso próprio esforço. É este o esforço verdadeiro. A não ser que conheçais a causa, sereis escravos do efeito; e eu vos digo que podeis vos libertar tanto da causa como do efeito, as quais produzem o ego. Ao vos libertar do desejo, cujo efeito é a eu-consciência, “eu-dade”, dualidade, um empecilho, a vós próprios libertais da causa; e, portanto, vos libertais daquilo que chamais karma, causa e efeito.

Como disse, necessitais dar-vos conta da causa da eu-consciência, a individualidade. Não aceiteis nem rejeiteis o que digo, mas buscai saber porque existe esta ideia do “eu”, procedei à descoberta da causa que produz este desastroso efeito. Haveis de verificar que, pela percepção, pela sensação, pelas ideias, quer coletivas, quer pessoais, manifesta-se o desejo e esse desejo dá lugar a muitos empecilhos, cria a autoconsciência.

Ora, para realizar a Verdade, para perceber este infinito renovar da Vida, deveis estar completamente livres, vossa mente deve por completo achar-se despojada de todos os desejos. Direis: “como pode um homem do mundo viver num mundo isento de desejos?” Haveis jamais visto a causa da tristeza e dito a vós próprios: “Libertar-me-ei dessa causa?” Intelectualmente vedes a causa e intelectualmente vedes quão difícil é dela se libertar.

Por isso, jamais vos esforçais, mas dizeis: “um homem do mundo não pode viver sem desejos, tem que lutar por si mesmo nesta civilização, pois, de outro modo, será esmagado e destruído”. Vós não haveis feito a experiência, por isso não podeis dizer o que acontecerá.

Fazeis conjecturas a este respeito, porém, dado não haverdes feito a experiência, vosso pensamento é meramente teórico e, portanto, de pouquíssimo valor. Ao passo que, se estiverdes emocionalmente apercebidos desta ideia a respeito da vida completamente liberta de desejos, então verificareis que sois senhores das circunstâncias, pelo fato de possuirdes uma capacidade infinita de plasticidade que vos permite o não vos apegar a coisa alguma, não tendo, por isso, temores. Libertos da sensação oriunda da percepção, entendeis sem necessitar de seus estímulos.

Precisais libertar-vos da sentimentalidade da emoção, o que não quer dizer que vos liberteis da emoção; ao contrário, necessitais possuir uma grande intensidade de emoções,mas sem por ela vos deixar embaraçar. Isto quer dizer que tendes que vos libertar do apego às emoções pessoais. Ao mesmo tempo, deveis estar livres de todas as ideias e, no entanto, ser tão vivazes, que vos assemelheis a um oceano de ideias.

Isto não são meras teorias; eu vos estou falando daquilo que vivo, falo-vos do que hei permanentemente realizado, e cujo êxtase é imensurável. Eu me libertei da causa e efeito e sei o que estou dizendo. Falo da Vida e conheço a beatitude da Verdade. Isto pode parecer para vós mera teoria, pois que o não viveis. Se estiverdes virtualmente despertos para a vida, em lugar de ir empós o porvir ou o passado, o que nada mais é do que morte, verificareis a praticabilidade — essa de que sois tão orgulhosos — do que vos estou dizendo.

Ora, somente a ação pode revelar as inúmeras camadas do desejo das quais estais cativos. A ação não instrui, só vos liberta; vós, porém, imaginais que há necessidade de experiências para aprender. Buscais por intermédio de experiências, por meio das ações, algo que queira compreender. Portanto, a ação para vós, absolutamente não tem valor; vós vos servis da ação unicamente para determinar um avanço, para vos acrescentar para vos expandir. Assim, a ação cria em vós maior tristeza, em vez de vos libertar dela.

Para vós, a ação é mero acumulo, não é plenitude de sabedoria. Amontoais erudição sobre erudição e imaginais ser isto entendimento, ao passo que vos ides tornando cada vez mais prisioneiros da experiência. A verdadeira função da ação, seja mental, emocional ou fisicamente, é despojar-vos das camadas do desejo, pois que a ação reta é isenta de motivos. A Verdade não se realiza por meio de acúmulos de qualquer tipo, seja de virtudes, de qualidades ou de coisas, mas sim por meio de contínua penetração, que é a ação sempre no presente. Se estiverdes vivendo com esta concentração, com esta plasticidade de mente, no presente, vosso pensamento e emoção despertarão para o apercebimento da causa da tristeza, e assim a mente vai se libertando da limitação do desejo. Ao passo que, se tiverdes um motivo para a ação, por variadas e inúmeras que sejam as vossas experiências, essa ação destruirá a própria plenitude da Vida no presente.

A ação, portanto, não é um processo de colheita de conhecimento, porém sim de compreensão, não de acumulo, mas de eliminação, o que torna a mente infinitamente plástica.

Por meio deste desnudar atinge-se a percepção imediata. A ideia de estar a Verdade e alguma parte, de um Deus distante do homem, ao qual ele tem de chegar apenas pela evolução, pela perpetuação da autoconsciência, por meio da individualidade, é um erro. É a ação reta que deve se tornar vosso guia, vossa luz, não a ação baseada sobre intenções.

Durante o processo de descoberta da causa da tristeza, a qual é o desejo, defrontais a completa solidão, a qual até agora tendes cuidadosamente evitado, ocultando-vos por detrás da sensação.

Se realmente vos estiverdes esforçando para vos libertar da causa da tristeza, que é o desejo, ficareis solitários. No defrontar esta solidão, tornar-vos-eis vigilantes, ficareis alerta. Só estareis plenamente despertos quando não mais vos esforçardes para evitar seja o que for, quando não mais estiverdes tentando fugir ao inevitável, que é o ficar sozinhos. E então, por meio do êxtase dessa solidão, realiza-se a Verdade. Enquanto não estiverdes livres, tanto da vontade e desejo coletivos, como pessoais, não vos será possível realizar a Verdade. Esta requer uma mente maravilhosamente flexível e não podereis possuí-la enquanto vos apegardes a algo, seja o que for. No processo de despertar uma mente plástica, encontra-se a alegria da solidão, na qual existe recordação e não recordação. No libertar a mente de ideias e, portanto, de desarmonia, tereis a percepção direta; é esta a verdadeira inteligência, que é harmonia perfeita, que é a realização do eterno. Aquele que está alerta e vigilante, que jamais é indolente, esse realizará o perdurável.

Conhece-te a Ti Mesmo

29 NOVEMBRO 2015, 16:41
Penso que não existe tema mais interessante ou mais prometedor, ou de forma alguma mais excitante, do que o estudo de nós mesmos. Aos 15 ou 16 anos, estamos submersos em nós mesmos. Não há nada que nos interesse tanto. Depois apaixonamo-nos por alguém; mas ainda assim estamos extasiados com nós próprios. Há, descobrimos, muito mais inteligência no estudo de nós mesmos, e muito pouco pensamento dedicado aos outros. E de bom grado damos a uma quiromante 15 rupias para ela nos contar tudo sobre nós. E sentimo-nos bastante confortáveis com o pensamento de que iremos ser grandes um dia – sem, aparentemente, ter que lutar por essa grandeza. Existe apenas um tema que nos atrai e esse somos nós mesmos. Discutimo-nos, e de uma forma aprobatória consideramos como nos comportar, de que modo desenvolvermo-nos, e por aí em diante.

Parece-me que se pensarmos inteiramente deste ponto de vista, deste ponto que unicamente nos interessa a nós, não entenderemos porque é que existimos, ou porque qualquer coisa neste mundo, de todo, existe. Claro que é verdade que primeiro temos de nos compreender a nós mesmos antes de querer descobrir seja o que for sobre a vida em geral. Filosofia, religião e outros temas não possuem real valor, real controlo sobre um indivíduo, ou apenas têm uma pequena influência, quando somente apontam como podemos escapar a certas coisas, como evitar o mal, e por ai fora. Mas aqueles de nós que são membros da Star, ou pertencem a tais organizações, deverão ter a ideia de um plano definido que está a desenvolver-se.

Estamos em posição de examinar as coisas que nos são mais valiosas – coisas que produzem em nós o desejo de evoluir. Em todos nós existe o desejo de descobrir por nós mesmos até onde podemos compreender quem somos e o que nos afecta. A pessoa comum está de longe mais interessada nela mesma do que em qualquer outra. Luxúria, conforto, felicidade, tudo tem que apoiar os seus fins. Quando tudo foi feito para a satisfazer então somente pensa nos outros. Quando eu tiver comido e dormido o suficiente, voltar-me-ei para pensar nos outros. Esta é a visão comum. Se tiveste amor em abundância, ou felicidade, és levado a pensar no outro.

Mas para alcançar essa felicidade, devemos descobrir até onde nos encaixamos num plano definido. Devemos estar cientes de que há um plano em que cada um de nós tem um papel a representar, e devemos possuir a determinação na qual agiremos, com a qual deveremos criar o ambiente no qual caberemos – ou não; e se estivermos dispostos a procurar com a atitude correcta deveremos ser capazes de descobrir até onde nos encaixaremos nesse plano. Para mim, posso imaginar que os deuses eleitos disseram que Krishna deverá encaixar-se num certo plano estabelecido, e que o quer que seja que ele faça, não terá valor, e enquanto encaixar nesse plano, Krishna crescerá e será feliz. Eu estava interessado e observava-me a mim mesmo, e podia ver de ano para ano uma mudança definida, uma orientação definida, uma transformação definida e podia ver qual era o meu definido papel. E assim cada um de nós deverá descobrir que caminho percorrer e qual a especialidade a ter.

Acontece frequentemente que a maioria de nós está disposta a subir até ao altar e verter a nossa devoção. A devoção existe, em diversos graus, na maioria de nós, mas não pode nem deve satisfazer-nos. Se eu fosse ter com a Dr.ª Besant e lhe disesse: “Estou disposto a servi-la em qualquer das minhas capacidades. Estou disposto a sacrificar tudo e o meu único desejo é trabalhar para obter conforto, independência, e por aí fora,” ela diria, “Oh, muito bem; que capacidades trazes contigo. De que modo queres prestar serviço ao Mestre?” A devoção deve ter um escape na actividade física; e desta forma se tivermos de determinar qual o papel que cada um de nós tem de representar, antes de nos oferecermos, devemos descobrir quais as capacidades que temos. Quando para um Teósofo ou um membro da Star ou qualquer outro, o chamamento aparece como “sacrifica tudo e vem ao Mestre,” não é suficiente pedir ao Mestre que aceite somente a nossa devoção; devemos dar-lhe qualquer coisa que lhe permita guiar-nos. Por outras palavras, devemos trazer perante o Mestre certas capacidades e não aparecer apenas de mãos vazias. Se eu puder chegar junto do Mestre e dizer “Eu posso fazer isto ou aquilo, eu posso escrever ou pintar ou compor música ou representar,” Ele dirá: “Muito bem, esse é o teu caminho. Vai e procura, descobre quais são os teus talentos, e logo que os encontres, saberás como sofrer e servir.” Pois existem muito poucos que realmente conseguem dizer, “Eu posso fazer isto; ao longo desta linha reside o meu sacrifício ao serviço do Mestre.” Consideramos que nos sacrificámos quando terminamos sem algo do qual podemos facilmente abrir mão.

Se eu tivesse imaginado algo em particular que o Mestre quisesse realizado, eu tratá-lo-ia de outro modo. E se eu precisasse de riquezas, tê-las-ia acumulado, não para mim, mas para o Mestre, e ao acumula-las, saberia que tinha que me sacrificar, e tinha que suportar enormes sofrimentos e mal-entendidos. Mas é a atitude que conta. Estamos com medo de que as nossas capacidades não nos guiem pelo caminho que nos foi preparado. Assim temos que descobrir antes de servir realmente, de que maneira cada um de nós pode servi-Lo, de que modo podemos oferecer o nosso sacrifício, e ao descobrir qual o nosso caminho deveremos descobrir a qual tipo pertencemos, se ao tipo que vai para o mundo e se desenvolve no mundo, por assim dizer, ou é deixado numa estufa e evolui, como uma planta, igualmente cheio de força. Há pessoas que trabalham no mundo por vários anos, que trabalham e fazem de tudo sem descobrir qual o propósito da vida. Descobrem o seu propósito por acaso, mas acumularam tanto do que o mundo tem para dar que ao entrarem em contacto com as realidades espirituais abrem mão de tudo o que adquiriram, enquanto aqueles que cresceram numa estufa separados do mundo alcançam o objectivo por outro caminho.

Portanto tal não tem importância desde que tenhamos aprendido o que ambas as guerras de identidade podem oferecer, e não até então estarão aptos a servir o mundo. Imaginem apenas uma pessoa que é criada, diga-se, num templo onde é reprimida, onde desenvolve complexos. Assim que essa pessoa sai lá para fora para o mundo, tem a melhor das diversões; e é o mesmo com a pessoa que trabalha cá fora no mundo. Não podemos evoluir ao longo de uma linha definida. Devemos evoluir em todas as direcções e até lá não ajudamos e só atrapalharemos.

Tal como eu conheço o meu próprio caminho, também cada um de nós deverá descobrir o seu caminho e até essa descoberta ser feita não devemos estar prontos ou aptos para servir o Mestre. Aqueles de nós que têm imaginação, que em certo grau têm a capacidade de tomar uma visão impessoal da vida, podem descobrir isto. Mas a maioria de nós não têm o desejo de servir, nem o desejo de alcançar o seu caminho ou objectivo.

O nosso problema é que tal como no mundo exterior, temos os nossos direitos adquiridos. E desde que exista o elemento de egoísmo, não descobriremos o caminho. Cada um de nós quer que o Mestre desça até si; mas o que não aprendemos foi que, mesmo como imaginamos, se Ele descesse das nuvens, seríamos incapazes de O servir, porque não nos equipámos para Lhe prestar serviço.

Devemos descobrir de que maneira podemos servir, e isso implica a completa violação de nós mesmos, das nossas relações, etc. Não é que não tenhamos o desejo, nem a nostalgia que as grandes pessoas têm; mas em nós não é constante. Não existe aquela pressão contínua que nos mantêm a andar, a andar, a andar. Significa verdadeiro sacrifício, significa subjugar-nos em tudo e não deixar o ego (a personalidade, o eu) ficar-se por cima. Então deixaremos de distorcer as coisas para que se encaixem nos nossos preconceitos, mas compreendê-las-emos de um modo total; por outras palavras, tornam-se realmente simples.

Devemos ter a coragem e determinação para desistir; e quando subimos e atingimos uma certa distância, descobrimos o quanto de tolos somos ao lutar pelo que é tão trivial, tão simples. Existem tantos temas com os quais lutamos de uma forma tão complicada; mas se nós apenas nos deixássemos expandir um pouco, todos estes temas se tornavam simples, todas as complicações desapareceriam. Mas requer que nos observemos constantemente, que estejamos atentos para ver se estamos a fazer a coisa certa ou a coisa errada.

Cada um de nós sabe destas coisas de fio a pavio, e mesmo assim se o Mestre chegasse e perguntasse o que cada um de nós soube fazer, de que modo agimos na sua ausência, de que modo cumprimos o nosso papel, quais seriam as nossas respostas? É surpreendente como não conseguimos mudar, como devíamos, tal e qual uma flor. A nossa crença embora forte, não é a crença de um homem que age com uma determinação fixa. Essas são, no entanto, as pessoas que o Mestre quer ao Seu serviço, e não somente aquelas que são apenas devotas, sem que essa devoção as conduza à acção. Se nós conseguirmos pôr de lado a nossa própria evolução, e trabalhar e esquecermo-nos de nós mesmos no trabalho, então seremos verdadeiramente servis e aproximar-nos-emos do Mestre. Pode ser que eu seja jovem, que eu não tenha sofrido como os mais velhos já sofreram, mas se o sofrimento pode desalentar o entusiasmo então mais vale não tê-lo. Mas o que foi que nos ensinou o sofrimento?

Como disse no início, não existe nada tão absorvente como o estudo de nós mesmos. Esse é o único assunto sobre o qual vale a pena pensar; porque significa mudança. Não existe ninguém para forçar os mais velhos, e portanto ficam cristalizados. O que interessa é descobrir o que podemos fazer e até onde nos podemos sacrificar; quanta é a nossa força e quais as nossas capacidades. Quando vemos pessoas numa atitude de reverência, penso frequentemente no que terão feito por via do sacrifício.

Nos anos que estão para vir, ou temos que nos adaptar rapidamente à corrente em mudança, ou sair completamente dela. Quando definitivamente agarrarmos um vislumbre do Plano, por mais passageiro que seja, e sabendo que devemos continuar, simplesmente continuaremos, porque é muito mais divertido do que somente marcar o tempo. O que interessa é termos de fazer qualquer coisa para mudar. A velhice não significa que não podemos mudar. Por outro lado, é mais fácil para os mais velhos, porque eles já tiveram a experiência, e o sofrimento; no entanto continuam do mesmo velho modo de perpétua negligência. Se querem ganhar dinheiro, vão e ganhem milhões, e dêem-nos ao Mestre, e podem fazê-lo se tiverem a atitude correcta. E é o mesmo com tudo o resto que queiram fazer – escrever á maquina, estenografar ou qualquer outra coisa que desejem que seja o vosso serviço para o Mestre. A atitude é o que conta e quando chegarem lá todo o resto se seguirá.