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o EU nada mais é que frustração

Do que vou dizer nesta manhã, alguns dentre vós podem concluir que apenas estou destruindo, sem vos dar ideias construtivas em virtude das quais possais viver; se, porém, refletirdes cuidadosamente no que digo, haveis de verificar que no vos despojardes de todas essas coisas que ao redor de vós haveis construído como essenciais, nesse próprio processo de desnudamento, reside a beatitude da Verdade. No processo de vos libertardes das aquisições, seja de ideias, seja de coisas, ou sensações, tornai-vos superiormente inteligentes — não dessa inteligência erudita que provém dos livros, mas da percepção direta, essa inteligência de valor supremo, que é o verdadeiro discernimento. Não podeis discernir, compreender, penetrar, a não ser que tenhais a mente perfeitamente livre; e no vos libertar de embaraços, está a inteligência natural que é essencial para a compreensão da Vida.

Alguns de vós que aqui tendes estado durante os três últimos dias, podem achar-se impacientes pelas minhas repetições; tenho, porém, notado que, mesmo aqueles que ouviram não alcançaram inteiramente aquilo que tenho em vista transmitir. Quero demonstrar-vos que a Verdade não se realiza pela mera imitação, a ela não se chega por meio do culto ou daquilo que denominais meditação; e mais, que realizar a Vida não é ir atrás dela.

Pensais que, perseguindo, indo atrás da Verdade, realizareis a eternidade. Eu vos quero mostrar que o processo é perfeitamente o contrário, isto é, que dado não terdes a possibilidade de saber o que é a Verdade, não podeis busca-la. Quando buscais algo, é porque já concebestes o que é, sendo, portanto, coisa morta. Não podeis perseguir a Verdade, não podeis ir correndo atrás dela, porque ela sempre está presente. Não vos é possível procurar algo que tendes sempre diante de vós; seria o mesmo que correr atrás da vossa própria sombra. Posto que possais ler e ouvir diversas coisas a seu respeito, não podeis saber o que seja a Verdade; portanto, não podeis persegui-la. Vossa mente não pode estar sobrecarregada pela ideia do que seja a Verdade. Aquilo que concebeis como Verdade, já não é a Verdade: aquilo que concebeis como tal é apenas vossa imaginação, uma ideia, uma sensação, enquanto que a Verdade não é nenhuma dessas coisas. Uma mente finita não pode compreender a infinitude.

Não podeis segurar o vento em vossos punhos; não podeis alcançar o inconcebível, o indescritível, e, no entanto, é isto o que cada qual de vós se esforça por fazer. Nesta mera tentativa, apenas criais uma ideia a respeito do que seja a Verdade; disto provem uma finalidade, que não é senão morte. Nada mais é que desperdício de energia e tempo, uma luta inútil, o tentar segurar alguma coisa que não pode ser agarrada. Se realmente compreenderdes isto, então fareis uso de vossos esforços na direção correta.

Ora, a verdadeira espiritualidade — pessoalmente, eu não gosto desta palavra, pois tem sido lamentavelmente confundida com sentimentalidade, estupidez e histeria — exige grande persistência de inteligência, a inteligência proveniente da continuada harmonia, da direta percepção. Em momentos de lucidez, a simples intervalos, tendes um sentimento intuitivo de algo que é perdurável, de algo que é indescritível, como um êxtase. Depois que isso passa, dedicais vosso tempo a retroceder para alcançar de novo e deter aquilo que haveis sentido nessas raras ocasiões; esforçai-vos por vos recordar, repelindo tudo quanto vos embaraça essa lembrança. Por esse modo vos esforçais para dominar as circunstâncias e a ideia de que delas tendes que vos libertar nasce dentro de vós. Se refletirdes a respeito de vós mesmos, verificareis que é isso o que estais fazendo, que é isto que o suposto pesquisador está se esforçando por efetuar.

Ansiais por ser guiados e encontrais um guia. Esse instrutor, esse mestre, salvador, modela-vos de conformidade com sua imagem. Por esse modo, vossos instrutores são os vossos destruidores, pois que vos modelam segundo um padrão, negando-vos a liberdade e estabelecendo sistemas e divisões. Aquele a quem seguis, a quem cultuais é, na verdade, o vosso destruidor. Pela indolência do desejo criais um instrutor e por esse modo vos tornais exploradores de vós próprios.

Ora, eu quero mostrar-vos que pelo vosso próprio reto esforço, pelo vosso viver, é que advém o êxtase da Vida, a tranquilidade da completude que não finda.

Possuindo a lembrança daquilo que se supõe ser verdadeiro e esforçando-se por se apegar a essa ilusão, cria-se um incessante conflito. Não vos esforçais por compreender a Vida tal qual ela é. Ao contrário, tendes ideia formada do que seja o céu ou nirvana, do que seja Deus, a Vida, a Verdade, e tentais forçar a vossa mente à compreensão dessa ideia que estabelece uma luta, uma série de resistências e, com essa atitude mental, tendes a esperança de chegar a um estado em que todo o esforço cessará.

Se prestardes atenção às operações de vossa mente, verificareis que vos apegais a recordações, sejam elas agradáveis ou desagradáveis e por esse meio, esperais alcançar êxito na realização da Vida. Isto é, possuis uma experiência que não haveis compreendido completamente, que não haveis vivido e terminado integralmente; por conseguinte, dela tendes recordação e, sobrecarregados por essa recordação vos esforçais por viver, por vos ajustar ao presente. Há, portanto, contínua aflição e infelicidade. Vossas ações são produtoras de tristeza pelo fato de vos esforçardes por viver no presente com uma mente anuviada pelo passado. Portanto, não tendes compreensão do presente, o único que encerra o perdurável. Se refletirdes sobre os vossos pensamentos e sentimentos, haveis de verificar que estais continuamente buscando ideias cada vez maiores, cada vez maiores estímulos, cimos cada vez mais altos para subir. Pela falta de entendimento do presente, esperais consecuções futuras, o que nada mais é que amontoar pó sobre pó. Isso nada mais é do que um feito intelectual, a qual denominais progresso. Atravessais a vida indo de uma para outra sensação, de uma para outra esperança, de uma para outra ideia, de um instrutor para outro, dando de contínuo satisfação ao vosso desejo. Quando mais cedeis a essa ânsia, mais ela cria objetos, ideias, salvadores, guris, para sua própria satisfação. Desse modo, a Verdade torna-se nada mais que um estímulo, uma concepção; e, portanto, jamais podereis realizá-la.  A Verdade é indescritível, ninguém vos pode estimular na direção dessa realização; se alguém o fizer, tal já não será a Verdade. Se alguém vos der uma ideia dela, se alguém vo-la descrever, não é mais a Verdade. Se alguém vos expuser seu êxtase, seu perfume, acautelai-vos dessa pessoa, pois que ela própria está cativa da sensação, e vós mais não vos tornareis que escravos dessa mesma sensação.

Espero que compreendais isto, pois que se assim não for, minhas palestras serão um desperdício de tempo.

Não vos é dado seguir a ninguém, posto que possais ponderar sobre suas ideias; não vos é possível conceber o que seja a Verdade, pois que ela é inconcebível, ilimitada; algo que apenas vos é dado realizar por meio de intenso apercebimento emocional. Ela nada tem que ver com estímulos, com histerismos; exige uma cuidadosa reflexão, uma mente plástica, e uma intensa vigilância na pesquisa.

Por meio da vista e do contato, tendes a sensação, da sensação o pensar e do pensar nascem as ideias. Assim, pois, estais criando desejos pela vossa percepção, pelo vosso contato e vossas sensações. Tendes muitas camadas de desejo e estas camadas em seu conjunto, se me é permitida a expressão, produzem a autoconsciência, a individualidade, o ego, a “eu-dade”, a personalidade. Estou servindo-me destes termos, em sinônimo, para deixar implícito que, onde quer que haja desejo de qualquer espécie, há autoconsciência; ao passo que pela cessação do desejo, manifesta-se a  inteligência e a perfeita harmonia. Haveis de verificar que aquilo que denominais o ego, a personalidade, a individualidade, a autoconsciência, nada mais é do que uma série de embaraços criados pelo desejo. Portanto, o “Eu”, nada mais é do que uma frustração, ou o reconhecimento por meio de choques oriundos da reação, de um empecilho. Isto é, sois conscientes de vós próprios como personalidade, como ego, somente quando sois frustrados, isto é, quando há resistência.

Portanto, essas camadas de desejo, são produzias pela sensação, pelo contato, pela percepção. Há um desejo intenso e por meio deste, surge a ideia da distinção, portanto da resistência. Tendo criado distinções de personalidade, ego, individualidade, imaginais que a realização da Verdade, essa beatitude eterna, só se encontra pela evolução, pelo processo deste empecilho a que chamais “Eu”. Isto não é exatamente uma observação intelectual, uma simples ideia filosófica. Se refletirdes sobre ela, verificareis que quando estiverdes intensamente interessados, quando estiverdes plenamente concentrados, não haverá mais este embate do esforço. O que chamais ego, e que nada mais é que resistência, constitui uma ilusão, um erro; e um erro projetado através do infinito, por amplo, por glorificado que esteja, continua sempre sendo erro.

Não pretendo que aceiteis o que digo, porém, fazei-me o favor de refletir sobre isto com cuidado e verificareis quão natural, quão simples isto é. Homem de suprema inteligência é aquele que em si próprio está liberto de toda a resistência, a qual se cria por meio da distinção das ideias. Essa distinção surge do desejo — “eu quero”, “eu posso”. Tendo este desejo como causa construís um edifício completo de vida; todo o vosso pensamento se baseia sobre a separação, a distinção, a resistência. Quando buscais unir-vos com a Verdade, desejais manter vossas distinções e pretendeis que todos se vos assemelhem. Ansiais pela isenção de esforço na uniformidade a que chamais Verdade. A Verdade não pode ser assim medida; ela é livre, infinitamente sutil, sempre nova, jamais estática. Para realizá-la tendes que possuir a mente esquisitamente plástica, liberta de ideias cuja causa seja o desejo; haveis porém, esquecido a causa, que é o desejo, e apegai-vos ao efeito, que é o ego, a personalidade, a individualidade.

Ora, este ato de tornar-se apercebido das coisas é plena eu-consciência, e ninguém vos pode informar se estais ou não plenamente autoconscientes; só chegais a isto pelo vosso próprio esforço. É este o esforço verdadeiro. A não ser que conheçais a causa, sereis escravos do efeito; e eu vos digo que podeis vos libertar tanto da causa como do efeito, as quais produzem o ego. Ao vos libertar do desejo, cujo efeito é a eu-consciência, “eu-dade”, dualidade, um empecilho, a vós próprios libertais da causa; e, portanto, vos libertais daquilo que chamais karma, causa e efeito.

Como disse, necessitais dar-vos conta da causa da eu-consciência, a individualidade. Não aceiteis nem rejeiteis o que digo, mas buscai saber porque existe esta ideia do “eu”, procedei à descoberta da causa que produz este desastroso efeito. Haveis de verificar que, pela percepção, pela sensação, pelas ideias, quer coletivas, quer pessoais, manifesta-se o desejo e esse desejo dá lugar a muitos empecilhos, cria a autoconsciência.

Ora, para realizar a Verdade, para perceber este infinito renovar da Vida, deveis estar completamente livres, vossa mente deve por completo achar-se despojada de todos os desejos. Direis: “como pode um homem do mundo viver num mundo isento de desejos?” Haveis jamais visto a causa da tristeza e dito a vós próprios: “Libertar-me-ei dessa causa?” Intelectualmente vedes a causa e intelectualmente vedes quão difícil é dela se libertar.

Por isso, jamais vos esforçais, mas dizeis: “um homem do mundo não pode viver sem desejos, tem que lutar por si mesmo nesta civilização, pois, de outro modo, será esmagado e destruído”. Vós não haveis feito a experiência, por isso não podeis dizer o que acontecerá.

Fazeis conjecturas a este respeito, porém, dado não haverdes feito a experiência, vosso pensamento é meramente teórico e, portanto, de pouquíssimo valor. Ao passo que, se estiverdes emocionalmente apercebidos desta ideia a respeito da vida completamente liberta de desejos, então verificareis que sois senhores das circunstâncias, pelo fato de possuirdes uma capacidade infinita de plasticidade que vos permite o não vos apegar a coisa alguma, não tendo, por isso, temores. Libertos da sensação oriunda da percepção, entendeis sem necessitar de seus estímulos.

Precisais libertar-vos da sentimentalidade da emoção, o que não quer dizer que vos liberteis da emoção; ao contrário, necessitais possuir uma grande intensidade de emoções,mas sem por ela vos deixar embaraçar. Isto quer dizer que tendes que vos libertar do apego às emoções pessoais. Ao mesmo tempo, deveis estar livres de todas as ideias e, no entanto, ser tão vivazes, que vos assemelheis a um oceano de ideias.

Isto não são meras teorias; eu vos estou falando daquilo que vivo, falo-vos do que hei permanentemente realizado, e cujo êxtase é imensurável. Eu me libertei da causa e efeito e sei o que estou dizendo. Falo da Vida e conheço a beatitude da Verdade. Isto pode parecer para vós mera teoria, pois que o não viveis. Se estiverdes virtualmente despertos para a vida, em lugar de ir empós o porvir ou o passado, o que nada mais é do que morte, verificareis a praticabilidade — essa de que sois tão orgulhosos — do que vos estou dizendo.

Ora, somente a ação pode revelar as inúmeras camadas do desejo das quais estais cativos. A ação não instrui, só vos liberta; vós, porém, imaginais que há necessidade de experiências para aprender. Buscais por intermédio de experiências, por meio das ações, algo que queira compreender. Portanto, a ação para vós, absolutamente não tem valor; vós vos servis da ação unicamente para determinar um avanço, para vos acrescentar para vos expandir. Assim, a ação cria em vós maior tristeza, em vez de vos libertar dela.

Para vós, a ação é mero acumulo, não é plenitude de sabedoria. Amontoais erudição sobre erudição e imaginais ser isto entendimento, ao passo que vos ides tornando cada vez mais prisioneiros da experiência. A verdadeira função da ação, seja mental, emocional ou fisicamente, é despojar-vos das camadas do desejo, pois que a ação reta é isenta de motivos. A Verdade não se realiza por meio de acúmulos de qualquer tipo, seja de virtudes, de qualidades ou de coisas, mas sim por meio de contínua penetração, que é a ação sempre no presente. Se estiverdes vivendo com esta concentração, com esta plasticidade de mente, no presente, vosso pensamento e emoção despertarão para o apercebimento da causa da tristeza, e assim a mente vai se libertando da limitação do desejo. Ao passo que, se tiverdes um motivo para a ação, por variadas e inúmeras que sejam as vossas experiências, essa ação destruirá a própria plenitude da Vida no presente.

A ação, portanto, não é um processo de colheita de conhecimento, porém sim de compreensão, não de acumulo, mas de eliminação, o que torna a mente infinitamente plástica.

Por meio deste desnudar atinge-se a percepção imediata. A ideia de estar a Verdade e alguma parte, de um Deus distante do homem, ao qual ele tem de chegar apenas pela evolução, pela perpetuação da autoconsciência, por meio da individualidade, é um erro. É a ação reta que deve se tornar vosso guia, vossa luz, não a ação baseada sobre intenções.

Durante o processo de descoberta da causa da tristeza, a qual é o desejo, defrontais a completa solidão, a qual até agora tendes cuidadosamente evitado, ocultando-vos por detrás da sensação.

Se realmente vos estiverdes esforçando para vos libertar da causa da tristeza, que é o desejo, ficareis solitários. No defrontar esta solidão, tornar-vos-eis vigilantes, ficareis alerta. Só estareis plenamente despertos quando não mais vos esforçardes para evitar seja o que for, quando não mais estiverdes tentando fugir ao inevitável, que é o ficar sozinhos. E então, por meio do êxtase dessa solidão, realiza-se a Verdade. Enquanto não estiverdes livres, tanto da vontade e desejo coletivos, como pessoais, não vos será possível realizar a Verdade. Esta requer uma mente maravilhosamente flexível e não podereis possuí-la enquanto vos apegardes a algo, seja o que for. No processo de despertar uma mente plástica, encontra-se a alegria da solidão, na qual existe recordação e não recordação. No libertar a mente de ideias e, portanto, de desarmonia, tereis a percepção direta; é esta a verdadeira inteligência, que é harmonia perfeita, que é a realização do eterno. Aquele que está alerta e vigilante, que jamais é indolente, esse realizará o perdurável.

Conhece-te a Ti Mesmo

29 NOVEMBRO 2015, 16:41
Penso que não existe tema mais interessante ou mais prometedor, ou de forma alguma mais excitante, do que o estudo de nós mesmos. Aos 15 ou 16 anos, estamos submersos em nós mesmos. Não há nada que nos interesse tanto. Depois apaixonamo-nos por alguém; mas ainda assim estamos extasiados com nós próprios. Há, descobrimos, muito mais inteligência no estudo de nós mesmos, e muito pouco pensamento dedicado aos outros. E de bom grado damos a uma quiromante 15 rupias para ela nos contar tudo sobre nós. E sentimo-nos bastante confortáveis com o pensamento de que iremos ser grandes um dia – sem, aparentemente, ter que lutar por essa grandeza. Existe apenas um tema que nos atrai e esse somos nós mesmos. Discutimo-nos, e de uma forma aprobatória consideramos como nos comportar, de que modo desenvolvermo-nos, e por aí em diante.

Parece-me que se pensarmos inteiramente deste ponto de vista, deste ponto que unicamente nos interessa a nós, não entenderemos porque é que existimos, ou porque qualquer coisa neste mundo, de todo, existe. Claro que é verdade que primeiro temos de nos compreender a nós mesmos antes de querer descobrir seja o que for sobre a vida em geral. Filosofia, religião e outros temas não possuem real valor, real controlo sobre um indivíduo, ou apenas têm uma pequena influência, quando somente apontam como podemos escapar a certas coisas, como evitar o mal, e por ai fora. Mas aqueles de nós que são membros da Star, ou pertencem a tais organizações, deverão ter a ideia de um plano definido que está a desenvolver-se.

Estamos em posição de examinar as coisas que nos são mais valiosas – coisas que produzem em nós o desejo de evoluir. Em todos nós existe o desejo de descobrir por nós mesmos até onde podemos compreender quem somos e o que nos afecta. A pessoa comum está de longe mais interessada nela mesma do que em qualquer outra. Luxúria, conforto, felicidade, tudo tem que apoiar os seus fins. Quando tudo foi feito para a satisfazer então somente pensa nos outros. Quando eu tiver comido e dormido o suficiente, voltar-me-ei para pensar nos outros. Esta é a visão comum. Se tiveste amor em abundância, ou felicidade, és levado a pensar no outro.

Mas para alcançar essa felicidade, devemos descobrir até onde nos encaixamos num plano definido. Devemos estar cientes de que há um plano em que cada um de nós tem um papel a representar, e devemos possuir a determinação na qual agiremos, com a qual deveremos criar o ambiente no qual caberemos – ou não; e se estivermos dispostos a procurar com a atitude correcta deveremos ser capazes de descobrir até onde nos encaixaremos nesse plano. Para mim, posso imaginar que os deuses eleitos disseram que Krishna deverá encaixar-se num certo plano estabelecido, e que o quer que seja que ele faça, não terá valor, e enquanto encaixar nesse plano, Krishna crescerá e será feliz. Eu estava interessado e observava-me a mim mesmo, e podia ver de ano para ano uma mudança definida, uma orientação definida, uma transformação definida e podia ver qual era o meu definido papel. E assim cada um de nós deverá descobrir que caminho percorrer e qual a especialidade a ter.

Acontece frequentemente que a maioria de nós está disposta a subir até ao altar e verter a nossa devoção. A devoção existe, em diversos graus, na maioria de nós, mas não pode nem deve satisfazer-nos. Se eu fosse ter com a Dr.ª Besant e lhe disesse: “Estou disposto a servi-la em qualquer das minhas capacidades. Estou disposto a sacrificar tudo e o meu único desejo é trabalhar para obter conforto, independência, e por aí fora,” ela diria, “Oh, muito bem; que capacidades trazes contigo. De que modo queres prestar serviço ao Mestre?” A devoção deve ter um escape na actividade física; e desta forma se tivermos de determinar qual o papel que cada um de nós tem de representar, antes de nos oferecermos, devemos descobrir quais as capacidades que temos. Quando para um Teósofo ou um membro da Star ou qualquer outro, o chamamento aparece como “sacrifica tudo e vem ao Mestre,” não é suficiente pedir ao Mestre que aceite somente a nossa devoção; devemos dar-lhe qualquer coisa que lhe permita guiar-nos. Por outras palavras, devemos trazer perante o Mestre certas capacidades e não aparecer apenas de mãos vazias. Se eu puder chegar junto do Mestre e dizer “Eu posso fazer isto ou aquilo, eu posso escrever ou pintar ou compor música ou representar,” Ele dirá: “Muito bem, esse é o teu caminho. Vai e procura, descobre quais são os teus talentos, e logo que os encontres, saberás como sofrer e servir.” Pois existem muito poucos que realmente conseguem dizer, “Eu posso fazer isto; ao longo desta linha reside o meu sacrifício ao serviço do Mestre.” Consideramos que nos sacrificámos quando terminamos sem algo do qual podemos facilmente abrir mão.

Se eu tivesse imaginado algo em particular que o Mestre quisesse realizado, eu tratá-lo-ia de outro modo. E se eu precisasse de riquezas, tê-las-ia acumulado, não para mim, mas para o Mestre, e ao acumula-las, saberia que tinha que me sacrificar, e tinha que suportar enormes sofrimentos e mal-entendidos. Mas é a atitude que conta. Estamos com medo de que as nossas capacidades não nos guiem pelo caminho que nos foi preparado. Assim temos que descobrir antes de servir realmente, de que maneira cada um de nós pode servi-Lo, de que modo podemos oferecer o nosso sacrifício, e ao descobrir qual o nosso caminho deveremos descobrir a qual tipo pertencemos, se ao tipo que vai para o mundo e se desenvolve no mundo, por assim dizer, ou é deixado numa estufa e evolui, como uma planta, igualmente cheio de força. Há pessoas que trabalham no mundo por vários anos, que trabalham e fazem de tudo sem descobrir qual o propósito da vida. Descobrem o seu propósito por acaso, mas acumularam tanto do que o mundo tem para dar que ao entrarem em contacto com as realidades espirituais abrem mão de tudo o que adquiriram, enquanto aqueles que cresceram numa estufa separados do mundo alcançam o objectivo por outro caminho.

Portanto tal não tem importância desde que tenhamos aprendido o que ambas as guerras de identidade podem oferecer, e não até então estarão aptos a servir o mundo. Imaginem apenas uma pessoa que é criada, diga-se, num templo onde é reprimida, onde desenvolve complexos. Assim que essa pessoa sai lá para fora para o mundo, tem a melhor das diversões; e é o mesmo com a pessoa que trabalha cá fora no mundo. Não podemos evoluir ao longo de uma linha definida. Devemos evoluir em todas as direcções e até lá não ajudamos e só atrapalharemos.

Tal como eu conheço o meu próprio caminho, também cada um de nós deverá descobrir o seu caminho e até essa descoberta ser feita não devemos estar prontos ou aptos para servir o Mestre. Aqueles de nós que têm imaginação, que em certo grau têm a capacidade de tomar uma visão impessoal da vida, podem descobrir isto. Mas a maioria de nós não têm o desejo de servir, nem o desejo de alcançar o seu caminho ou objectivo.

O nosso problema é que tal como no mundo exterior, temos os nossos direitos adquiridos. E desde que exista o elemento de egoísmo, não descobriremos o caminho. Cada um de nós quer que o Mestre desça até si; mas o que não aprendemos foi que, mesmo como imaginamos, se Ele descesse das nuvens, seríamos incapazes de O servir, porque não nos equipámos para Lhe prestar serviço.

Devemos descobrir de que maneira podemos servir, e isso implica a completa violação de nós mesmos, das nossas relações, etc. Não é que não tenhamos o desejo, nem a nostalgia que as grandes pessoas têm; mas em nós não é constante. Não existe aquela pressão contínua que nos mantêm a andar, a andar, a andar. Significa verdadeiro sacrifício, significa subjugar-nos em tudo e não deixar o ego (a personalidade, o eu) ficar-se por cima. Então deixaremos de distorcer as coisas para que se encaixem nos nossos preconceitos, mas compreendê-las-emos de um modo total; por outras palavras, tornam-se realmente simples.

Devemos ter a coragem e determinação para desistir; e quando subimos e atingimos uma certa distância, descobrimos o quanto de tolos somos ao lutar pelo que é tão trivial, tão simples. Existem tantos temas com os quais lutamos de uma forma tão complicada; mas se nós apenas nos deixássemos expandir um pouco, todos estes temas se tornavam simples, todas as complicações desapareceriam. Mas requer que nos observemos constantemente, que estejamos atentos para ver se estamos a fazer a coisa certa ou a coisa errada.

Cada um de nós sabe destas coisas de fio a pavio, e mesmo assim se o Mestre chegasse e perguntasse o que cada um de nós soube fazer, de que modo agimos na sua ausência, de que modo cumprimos o nosso papel, quais seriam as nossas respostas? É surpreendente como não conseguimos mudar, como devíamos, tal e qual uma flor. A nossa crença embora forte, não é a crença de um homem que age com uma determinação fixa. Essas são, no entanto, as pessoas que o Mestre quer ao Seu serviço, e não somente aquelas que são apenas devotas, sem que essa devoção as conduza à acção. Se nós conseguirmos pôr de lado a nossa própria evolução, e trabalhar e esquecermo-nos de nós mesmos no trabalho, então seremos verdadeiramente servis e aproximar-nos-emos do Mestre. Pode ser que eu seja jovem, que eu não tenha sofrido como os mais velhos já sofreram, mas se o sofrimento pode desalentar o entusiasmo então mais vale não tê-lo. Mas o que foi que nos ensinou o sofrimento?

Como disse no início, não existe nada tão absorvente como o estudo de nós mesmos. Esse é o único assunto sobre o qual vale a pena pensar; porque significa mudança. Não existe ninguém para forçar os mais velhos, e portanto ficam cristalizados. O que interessa é descobrir o que podemos fazer e até onde nos podemos sacrificar; quanta é a nossa força e quais as nossas capacidades. Quando vemos pessoas numa atitude de reverência, penso frequentemente no que terão feito por via do sacrifício.

Nos anos que estão para vir, ou temos que nos adaptar rapidamente à corrente em mudança, ou sair completamente dela. Quando definitivamente agarrarmos um vislumbre do Plano, por mais passageiro que seja, e sabendo que devemos continuar, simplesmente continuaremos, porque é muito mais divertido do que somente marcar o tempo. O que interessa é termos de fazer qualquer coisa para mudar. A velhice não significa que não podemos mudar. Por outro lado, é mais fácil para os mais velhos, porque eles já tiveram a experiência, e o sofrimento; no entanto continuam do mesmo velho modo de perpétua negligência. Se querem ganhar dinheiro, vão e ganhem milhões, e dêem-nos ao Mestre, e podem fazê-lo se tiverem a atitude correcta. E é o mesmo com tudo o resto que queiram fazer – escrever á maquina, estenografar ou qualquer outra coisa que desejem que seja o vosso serviço para o Mestre. A atitude é o que conta e quando chegarem lá todo o resto se seguirá.