A mágoa, a deterioração da mente e o choque psíquico

Por que o cérebro, que foi ativo durante um certo período de tempo, se deteriora? E a resposta biológica para isso é que se tiver o suficiente poder de purificação, ele pode viver para sempre. Qual é o elemento de purificação?… Trata-se de uma deterioração da energia ou de uma deterioração das células do cérebro na sua capacidade de produzir energia?… Por que o cérebro não mantém sua qualidade de agudeza, de clareza, de profunda energia? À medida que envelhece, ele parece se deteriorar. Isso acontece mesmo aos vinte anos. Ele já está numa rotina e gradualmente falha. Quero descobrir se se trata de uma questão de idade. Você pode perceber que certas mentes, mesmo as bastante jovens, já perderam essa qualidade da vivacidade. Elas já estão presas a uma rotina, e o fator de deterioração já começou…

É uma questão de condicionamento e de superação desse condicionamento que libera energia e, portanto, capacita a mente a continuar indefinidamente; ou a deterioração tem que ver com uma mente que funciona a partir de decisões?

Tenho por decisões àquilo que opera através da escolha e da vontade. Uma pessoa decide o curso da ação que alguém vai tomar, e essa decisão se baseia não na lucidez, não na observação do campo como um todo, mas de acordo com a satisfação e o prazer que constituem partes desse campo. E a pessoa continua a viver nessa fragmentação. Estes é um dos fatores da deterioração. A escolha que faço de ser um cientista pode estar baseada na influência do ambiente, na influência familiar ou no meu próprio desejo de encontrar o sucesso numa determinada área. Essas várias considerações sobre a escolha de uma profissão em particular, e essa decisão, essa escola e a ação a partir dessa escolha são um dos fatores da deterioração. Eu desprezo resto do campo e só sigo uma área limitada, específica desse campo. As células do cérebro não funcionam como um todo, mas apenas numa direção… NEM TODO O CÉREBRO ESTÁ FUNCIONANDO e eu penso que esse é o fator de deterioração… Tenho observado, durante estes anos todos, que uma mente que seguiu um certo curso de ação, menosprezando a ação como um todo, se deteriora…

Estamos tentando descobrir quais são os fatores de deterioração. Quando descobrimos que fatores são esses, talvez possamos chegar ao resto, ver a totalidade… A busca, baseada na escolha, cujo motivo é a satisfação, a realização ou o desejo de conquista, essa busca deve criar o conflito. Portanto, o conflito é um dos fatores de deterioração. Talvez esse seja até o principal fator de deterioração. Decido me tornar algo; essa decisão é tomada com base no condicionamento criado por uma cultura, que é, por natureza, fragmentária… Essa decisão obviamente causa um conflito em mim… Este é um dos fatores da deterioração do cérebro. ESTOU USANDO APENAS UMA PARTE DELE. O próprio fator de divisão de um setor da minha vida em relação ao resto é um fator de deterioração. Assim, a escolha e a vontade são o fatores de deterioração.

Fixemo-nos nisso. Toda a nossa vida é baseada nesses dois fatores: a discriminação ou a escolha e a ação da vontade na busca da satisfação… Discriminação é escolha. Discrimino entre isto e aquilo… Vejo que a escolha e a vontade em ação são os fatores de deterioração, e se você vê isso, então o problema é o seguinte: há uma atividade que em si esses dois elementos, esses dois princípios?

Se herdei uma mente inerte, estúpida, estou liquidado. Posso ir a quantos templos e igrejas quiser, mas as minhas células cerebrais foram afetadas… Por que a vida em si deveria causar um choque psíquico?… Tudo bem. Aceitemos o choque — choque físico, psicológico, emocional de, repentinamente, perder algo ou alguém, o choque de ficar sozinho, o choque provocado por algo que, de repente, chega ao fim. As células do cérebro recebem esse choque. Agora, o que você fará com relação a isso? Esse choque é um fator de deterioração?… Meu filho está morto, meu irmão está morto. É um choque tremendo, porque moramos juntos, brincamos juntos. Esse choque paralisou a mente, o choque deve paralisá-la temporariamente. O fator importante é como a mente se sai disso. Ela sai com mágoa, com todas as implicações da mágoa, ou ela sai sem uma única mágoa?…

Quando meu irmão ou meu filho morre, toda a minha vida muda. A mudança é o choque. Tenho de sair dessa casa, tenho de ganhar a vida de um modo diferente; tenho de fazer um montão de coisas. Tudo isso está subentendido na palavra “choque”. Ora, estou perguntando se esse choque deixou uma marca, uma ferida, ou não. Se não deixou uma única marca, uma única mágoa, um único arranhão ou uma sombra de tristeza, então a mente sai desse choque TOTALMENTE REFEITA, TOTALMENTE NOVA. Mas se ela foi magoada, se se tornou embrutecida, então esse É UM FATOR DE DETERIORAÇÃO. Como a mente sabe conscientemente que não está magoada de forma intensa e profunda?…

Vamos analisar a questão… O choque é natural, porque, de repente, falando por metáforas, fui posto na rua. Neurológica, psicológica, interior e exteriormente, a coisa toda mudou. Como a mente se sai disso? Eis a questão. Ela sai com mágoa ou sai completamente PURIFICADA de todas as mágoas? Essas mágoas são superficiais ou profundas o bastante que a mente consciente não tenha a possibilidade de conhecê-las num dado momento e, portanto, para que elas continuem se repetindo e repetindo indefinidamente? Tudo isso é perda de energia. Como a mente descobre se está profundamente magoada?… Como a mente as mágoas profundas? O que é uma mágoa?… Existe mágoa profunda?…

Meu irmão morre, meu filho morre; o marido, a mulher, quem quer que seja. Trata-se de um choque. O choque é um tipo de mágoa. E eu pergunto: a mágoa é muito profunda? E o que eu quero dizer com “mágoa profunda”?… O que é realçado?… A dor, da qual vocês não estão conscientes, e o choque revela a dor. Existia a dor ou existia a causa da dor?…

A dor já existia. Ela é um dos fatores da deterioração. Meu irmão está morto. Esse fato é absolutamente irreversível. Eu não posso trazer meu irmão de volta… Há um choque. Esse choque é uma mágoa profunda. A causa da mágoa já existia e o choque apenas a revelou? A mágoa existia porque eu nunca a havia encarado? EU NUNCA HAVIA ENFRENTADO A SOLIDÃO. Eu nunca havia enfrentado o sentimento de solidão, que é um dos fatores da mágoa.

Agora, antes do choque, eu posso perceber essa solidão? Posso antes do choque, saber o que é estar sozinho? Antes do choque posso falar em apoio, dependência, todos os fatores de mágoa, causas da mágoa, de modo que, quando ocorrer o choque, o que acontece? NÃO TENHO NENHUMA MÁGOA. Isso está certo…

Observo a vida.Observo quais são as implicações do apego ou da indiferença, ou do cultivo da independência, porque eu não devo ficar dependente. A dependência causa dor, mas o cultivo da independência também pode causar dor. Portanto, EU OBSERVO A MIM MESMO, observo e vejo que qualquer tipo de dependência deve inevitavelmente causar uma grande dor. Então quando o choque vem, a causa da mágoa já não existe. UMA COISA TOTALMENTE DIFERENTE ACONTECE.

Você diria que o choque é “sofrimento”?… Se você passou pela solidão, pelo apego, pelo medo, não buscando a independência ou o desapego como um oposto ao apego, então, o que acontece? Quando o choque da morte vem, o que acontece? Você fica magoada?…

Olhe: o sofrimento é dor. Nós usamos esse sofrimento para abranger a solidão, o apego, a dependência, o conflito. Usamos todo o campo de fuga do homem em relação ao sofrimento e à causa do sofrimento. Usamos a palavra “sofrimento” para incluir tudo isso. Ou você gostaria de usar a expressão “a totalidade da dor”? A totalidade da dor oculta e visível… O choque traz toda essa dor à superfície… O que acontece? NÃO SEI COMO LIDAR COM ELA. Choro, rezo e vou ao templo. É isso o que acontece… Faço tudo, tentando sair dessa tortura imposta pela dor. Por que o choque revelaria tudo isso?

Ao ver o mendigo na estrada, o leproso ou o camponês trabalhando profundamente amargurados, por que isso não comove a mente humana? Por que o choque deveria fazer isso?… Por que esse mendigo não me choca particularmente, e a toda a sociedade? Por que isso não me comove?…

Estou lhe fazendo uma pergunta simples. Você vê o mendigo na estrada. Por que isso não é chocante para você? Por que você não chora? Por que choro apenas quando o MEU filho morre? Eu vi um frade em Roma. Chorei ao ver a dor de alguém acorrentado a um poste chamado religião. Nós não choramos naquela ocasião, mas choramos nesta. Por quê? Há um “porquê”, obviamente. Há um “porquê” para explicar a razão de nossa insensibilidade.

A mente está adormecida. O choque desperta.

É justamente isso. O choque a desperta e nós somos acordados para a dor, que é a nossa dor — nós não fomos acordados antes para a dor. Isso não é uma teoria. É dor. Agora, o que faz com a dor? A dor é sofrimento. O que acontece?… O que faço com a dor? Ela é intensa ou é superficial?… Você diz: “Ela é muito intensa”. Não a chame de intensa. Ela não tem nenhuma medida. Ela não é intensa ou superficial. Dor é dor. E então? VOCÊ FICA COM ELA, SUPORTA ESTA MÁGOA?… O que devemos fazer com a dor? Ignorá-la?… Vou ao analista para me livrar da dor? Leio um livro, vou ao Templo ou para Marte com o intuito de me livrar da dor? Como devo me livrar dela?…

Você está sofrendo. Você é essa dor. CONSERVE-A. Você está lá. VOCÊ A TOMA NOS BRAÇOS. Ela é o seu bebê. E então? Descubramos! Eu sou essa dor — a dor do camponês, a dor do mendigo, a dor do homem rico e angustiado, a dor do frade e de todo o resto. Eu sou essa dor. O que devo fazer?…

Nós perguntamo quais são os fatores de deterioração das células do cérebro e da mente. Dissemos que um dos principais fatores é o conflito. Outro fator é a mágoa, a dor. E quais são os outros fatores? O medo, o conflito, o sofrimento e a busca do prazer, sejam eles causados pela ideia de Deus, de assistência social ou de dedicação ao país. Portanto, esses são os fatores de deterioração. Quem deve agir? O que devo fazer? A menos que a mete resolva isso, sua ação produzirá mais sofrimento, mais dor.

A deterioração será acelerada.

Esse é um fato óbvio. Nós chegamos à questão da dor, da mágoa, do sofrimento e ao fator do medo, da busca de prazer, como sendo as causas da deterioração. O que devo fazer? O que a mente deve fazer?… Se está com dor, como pode agir?… Por que a dor deveria passar? Tudo o que você busca é fazer com que ela passe. Por que ela deveria passar? NÃO HÁ NENHUMA SAÍDA, não é mesmo?…

Você tem de viver com ela.

Como você vive com algo que é dor, que é tristeza? Como você vive com isso?… O que a mente deve fazer com essa mágoa profunda que causa dor, sofrimento, com essa batalha eterna que causa a deterioração das células cerebrais?…

Observar? Observar o quê? O meu sofrimento, a minha dor são diferentes do observador? São? A dor é diferente de quem a observa? Portanto, o que acontece? O observador diz: “Tenho de me livrar da dor”. Mas ela persiste no fim da jornada. Agora, o que acontece quando o observador é o observado?…

Todos nós queremos nos livrar da dor. Seria uma idiotice dizer: “Eu tenho de suportar a dor”. Mas é o que a maioria das pessoas faz e, por suportarem a dor, elas se comportam neuroticamente, indo a templos e assim por diante. Portanto, é um absurdo dizer que temos de suportar a dor. Pelo contrário, sabendo que essa dor é um dos principais fatores de deterioração, como pôr fim a ela? Senhor, quando a dor acaba, a mente se torna EXTRAORDINARIAMENTE EXALTADA; não é apenas uma mente insensível e sem dor. Quer saber o segredo disso?

Eu lhe direi. Vocês querem saber? Abordaremos a questão de uma forma diferente. É possível que uma mente nunca se magoe? A educação nos magoa, a família nos magoa, a sociedade nos magoa. Estou perguntando: “Pode a mente, vivendo num mundo onde há mágoa, nunca se magoar?” Vocês me chamam de tolo. Vocês me chamam de grande homem. Vocês me chamam de iluminado ou de sábio ou de velho estúpido. Chamam-me de qualquer coisa; como eu posso não me magoar? É o mesmo problema exposto de forma diferente… Esse é o segredo. O que vocês farão com todas as mágoas que os seres humanos acumularam? Se vocês não resolverem esse problema, façam o que quiserem, ele lhes trará mais tristeza. Continuemos. Acabamos de perguntar o que acontece quando o observador é o observado…

A observação sem o observador significa que há apenas aquela coisa que você chama de dor. Não há nenhuma entidade que diga que eu deva ir além da dor. Quando não há nenhum observador, há dor? É o observador que é magoado. É o observador que se ilude. É o observador que diz que está chocado. É o observador que diz: “Eu sei o que é a dor”. Agora, você pode observar essa coisa chamada dor sem o observador? Não é um vazio. O que acontece?…

Senhor, essa é uma coisa muito difícil, porque nós estamos sempre vendo a dor do centro, como o observador que diz: “Eu tenho que fazer algo”. Portanto, a ação está baseada no centro que faz algo em relação à dor, mas quando o centro é a dor, o que você faz? O que há para ser feito?

O que é a compaixão? A palavra “compaixão” significa paixão; como ela surge? Pela busca de uma atividade? Como ela surge? Quando o sofrimento não está presente, o “OUTRO” está. Isso significa algo para você? Como uma mente que sofre pode conhecer a compaixão?…

Nós estamos observando o fato; “o que é” o sofrimento, quem está sofrendo? Esse é um fato absoluto. Eu sofro e minha mente está fazendo tudo o que pode para fugir do sofrimento. Quando ela não foge, então ela observa. Então, quando o observador observa de perto, de muito perto, ele é de fato o observado, E ESSA MESMA DOR SE TRANSFORMA EM PAIXÃO, QUE É COMPAIXÃO. As palavras não são a realidade. Assim, NÃO FUJA DO SOFRIMENTO, o que não significa dizer que você se torne um mórbido. VIVA COM O SOFRIMENTO. Você vive com o prazer, não vive? Por que você não pode viver com o sofrimento de um modo pleno? Você pode viver com ele no sentido de não fugir dele? O que acontece? Observe. A mente é muito clara, muito esperta. Ela está diante do fato. O verdadeiro sofrimento, que se transforma em paixão, É ALGO ENORME. Disso surge uma mente que não pode ser magoada. Ponto final. Esse é o segredo.