O descondicionamento está no colapso cerebral

Nós dissemos que o conhecido é a consciência — que o conteúdo da consciência é o conhecido. Ora, há algo fora disto, algo que não é conhecido, que é totalmente novo e que ainda não existe nas células do cérebro? E se está fora do conhecido, é reconhecível? — porque, se for reconhecível, ainda está no âmbito do conhecido. E está disponível só quando o processo de reconhecimento e da vivência chega ao fim. Eu quero me limitar a isso. Pupul perguntou: Isso existe no que é conhecido ou no que está fora do conhecido e, se está fora do conhecido, já se encontra nas células do cérebro? Se está nas células do cérebro, já é conhecido, porque as células do cérebro não podem conter algo novo. No momento em que está nas células cerebrais, já é tradição.
Eu gosto de pesquisar a fundo. Há algo mais do lado de fora do cérebro? Isso é tudo. EU DIGO QUE HÁ. Porém, todo processo de reconhecimento, de experiência, está sempre dentro do campo do conhecido e qualquer atividade das células cerebrais, afastando-se do conhecido, tentando examinar algum outro campo, está no âmbito do que já se conhece.
Como se sabe que existe alguma coisa?
Você não pode saber. Há um estado em que a mente não conhece nada. Há um estado no qual o reconhecimento e a experiência, que são a atividade do conhecido, CHEGAM TOTALMENTE AO FIM.
Repare: o organismo, as células do cérebro, chegam a um fim. Tudo sucumbe; HÁ UM ESTADO TOTALMENTE DIFERENTE… Os sentidos estão em inatividade temporária…
Quando o conteúdo da consciência, com suas experiências, suas buscas, seu desejo por algo novo, INCLUSIVE SUA ÂNSIA POR SE LIBERTAR DO CONHECIDO, chega a um fim, SÓ ENTÃO A OUTRA QUALIDADE DE SER PASSA A EXISTIR. A qualidade anterior tem um motivo; a mais recente não tem. A mente não pode chegar nessa desconhecida qualidade de ser através de um motivo. O motivo é o conhecido. Portanto, a mente pode chegar a uma conclusão que diga: “Não vale a pena investigá-la; eu sei como fazê-la chegar a um fim, a ignorância é parte desta necessidade de experimentar mais?” Quando essa mente chega a uma conclusão — a uma conclusão que não seja causada pelo esforço consciente, em que há motivo, vontade, direção — então, A COISA EXISTE…
Quando não há movimento de reconhecimento, de vivência, de motivo, acontece a liberdade em relação ao conhecido… Essa atividade chegou temporariamente a um fim: isso é tudo.
[…] O cérebro funciona dentro do âmbito do que se conhece; nesta operação, há reconhecimento. Mas, quando o cérebro, quando a sua mente está COMPLETAMENTE QUIETA, você não vê a sua mente quieta. Não há conhecimento de que a sua mente esteja quieta. Se você sabe disso, ela não está quieta, porque nesse caso existe um observador que diz: “Eu sei”. A quietude sobre a qual estamos falando é não-reconhecível, não-experienciável. Em seguida, surge uma entidade que quer lhe dizer isso através da comunicação verbal. No momento em que ela, a entidade, passa a se comunicar, a mente, em repouso, não está mais presente. APENAS OLHE PARA A MENTE. Algo advém além dela. Ela existe para o homem. Não estou dizendo que ela existe sempre. Ela existe para o homem que entendeu o conhecido. Ela existe e nunca desapareceu e, embora, o homem se comunique, ele sente que a mente nunca se foi; ela existe.
[..] Comecemos de novo. É por acaso que ESSE OUTRO ESTADO DE SER pode acontecer a nós, ou se trata de uma exceção? Isso é o que estamos discutindo agora. Se é um milagre, pode acontecer com você? NÃO É UM MILAGRE; NÃO É ALGO DADO DO ALTO, de modo que alguém pode perguntar: Como isso aconteceu com esta pessoa e não a outra — certo?
O que podemos fazer?
Eu digo que vocês não podem fazer nada — o que não significa não fazer!…
Isso faz com que a iluminação entre em ação.
Você tem de atingir ESSA COISA com muita clareza. Você tem de atingi-la muito iluminadamente — em toda atividade — e, à medida que o corpo e os sentidos ficam iluminados, os dias e as noites passam facilmente. Você vê que se morre a todo minuto.
Para expressar tudo isso de uma forma diferente, chamaremos nesta ocasião de “ESSA” a energia infinita e, de a outra, a energia criada pelo medo e pelo conflito, totalmente diferente de “ESSA”. Quando não há conflito, ESSA energia infinita está sempre se renovando. A energia que é falha é a que nós conhecemos. Qual é a relação da energia que falga com “ESSA”? Não existe nenhuma relação.
Krishnamurti