Por que nos conformamos com a superficialidade de nossa vida?

A maior parte de nossas vidas é muito superficial, e é possível viver em grande profundidade e agir superficialmente? É possível que a mente habite ou viva em grande profundidade?… Vivemos superficialmente, e a maioria de nós está satisfeita com isso.
Alguns não estão satisfeitos. Porém, não sabem como aprofundar.
A maioria de nós suporta a vida. Agora, como a mente pode penetrar em profundidades maiores?… Eu afirmo que ela precisa de uma reserva de energia, de um impulso, e pergunto: como deve ser desenvolvida essa energia?
Vamos esquecer a palavra “energia”, por enquanto. Eu levo uma vida muito superficial, e vejo a beleza, intelectual ou verbal, de uma vida, de uma mente que tenha penetrado em si mesma de um modo realmente profundo, e pergunto: Como isso pode ser conseguido?… Como isso deve ser feito? O pensamento pode se aprofundar? O pensamento pode se tornar mais profundo?… Estou perguntando se o pensamento, que é tempo, que é o passado, pode chegar a essa profundidade?
Eu vejo muito claramente que qualquer profundidade mensurável ainda constitui um tipo de avaliação. Eu vejo esse aprofundamento como se ele dependesse do tempo; pode levar anos e, portanto, eu o vejo intelectualmente, raciocinando; vejo que a profundidade significa uma qualidade intemporal, incomensurável, um infinito cujo fundo não pode ser alcançado.
Vejo que a minha vida é uma vida superficial. Isso é óbvio. Portanto, eu digo a mim mesmo: o pensamento pode chegar a essa profundidade, já que ele é o único instrumento que tenho?
Eu levo uma vida muito superficial, e quero descobrir por mim mesmo se há uma profundidade que não seja mensurável, e constato que o pensamento não pode alcançá-la, porque o pensamento é um tipo de medida, o pensamento é tempo, o pensamento É RESPOSTA DO PASSADO; portanto, O PENSAMENTO PROVAVELMENTE NÃO PODE ENTENDÊ-LA. Então, o que isso causará? O pensamento não pode entendê-la e este é o único instrumento que o homem tem, então, o que ele deve fazer? O pensamento na sua atividade, na sua função, CRIOU ESTE MUNDO SUPERFICIAL NO QUAL VIVO, DO QUAL FAÇO PARTE. Isso é óbvio. Ora, é possível para a mete, sem o uso do pensamento, compreender algo que seja incompreensível? Não só em alguns momentos do meu sono ou quando estou andando sozinho, MAS VIVER ASSIM. Minha mente diz que a profundidade precisa ser descoberta para que a mente tenha essa qualidade — tenho de estar ciente dessa profundidade estranha e incompreensível de ALGO que não tem nome.
[…] Nós já discutimos isso: o pensamento é tempo, o pensamento é cálculo, o pensamento é resposta da memória, o pensamento é conhecimento, é experiência, passado; portanto, o passado é tempo. Esse pensamento tem de atuar sempre superficialmente. Isso é simples. Não se trata de uma abstração, mas de uma realidade. Mas o que é o pensamento? O pensamento não pode entender isso. Isso é tudo. Deixe-o como está.
[…] Ao levar uma vida superficial, como os seres humanos levam, eu digo a mim mesmo que eu gostaria de atingir essa profundidade onde há grande amplitude e beleza, algo imenso. Ora, o que devo fazer? Qual é a outra operação ou o outro movimento que deve acontecer quando o pensamento não está funcionando? A mente pode continuar sem limites?… Durante toda a sua vida, você conheceu o que são limites. Agora, pergunto a vocês: A mente pode existir sem limites?
[…] Eu quero descobrir se a minha mente, que foi condicionada ao movimento de avaliação — avaliação que equipara comparação, imitação, aquiescência, um ideal, uma resistência que a salvaguarda da não-avaliação — eu quero descobrir se a mente pode dizer: “Agora eu entendi todo o movimento de avaliação e vejo onde é o seu legítimo lugar e onde ela não cabe?”…
O pensamento examinou a mente, analisou-a num determinado momento; o pensamento indagou, insistiu, ponderou e a firma ter visto todo o movimento de avaliação e que a verdadeira percepção desse movimento é o fim desse movimento. A verdadeira percepção do movimento, isto é, o próprio ato de ver é a atividade e o fim dessa atividade. Ver que esse movimento é tempo, cálculo, ver todo o seu esquema, a sua natureza, a sua estrutura, essa verdadeira percepção age no sentido de colocar fim a esse movimento. Portanto, o ato de ver (sem ação do pensamento) é o ponto final. Não há nenhum esforço envolvido nisso. Você diz: “Eu vi isso”. Viu mesmo?
Krishnamurti